Puro frescor

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Luís Felipe Soares

A alimentação saudável é filosofia de vida para Elisa Fernandes. Não que a cozinheira esteja tão preocupada com a função estética do regime. Seu maior objetivo, na verdade, é a busca pela compreensão da nossa relação com o corpo. “Alimentação é questão de sobrevivência. Neste mundo tão corrido de hoje, nos esquecemos que comida é algo muito sério. Não podemos sair devorando qualquer coisa por aí. No meio disso, quem se preocupa com alimentação mais regrada acaba sendo tido como extremista. Radical é quem acha que é ‘ok’ comer grandes quantidades de sódio, sal e gordura sempre. Tudo bem ir ao fast-food às vezes, também vou, mas temos de colocar nas nossas cabeças que deve ser algo atípico. Há possibilidades de alimentos para toda a semana”, argumenta. É essa ideia que a jovem de 24 anos tenta levar para a carreira na cozinha, que está só começando, após se consagrar campeã da primeira edição da versão nacional do MasterChef, programa de culinária exibida no fim do ano pela Band.

 
Natural de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, e antiga moradora de Campinas, Elisa viu sua rotina mudar após encarar o desafio público (embora não soubesse exatamente no que estava se inscrevendo) e novos planos começaram a ser traçados. O título no programa – uma das atrações de destaque na temporada 2014 da televisão brasileira – agitou tudo de uma vez com a premiação de R$ 150 mil, um livro de receitas (que deve ser lançado neste semestre), um carro novo e bolsa de estudos para curso básico na renomada escola de culinária Le Cordon Bleu, em Paris, na França, considerada uma das melhores do mundo. “Nunca achei que iria ganhar, pois tinha gente muito boa na disputa. Mas o lance do programa não é premiar o melhor cozinheiro; é saber quem consegue ser o mais criativo, quem tem repertório interessante e quem sabe lidar melhor com as críticas. O MasterChef foi espécie de governo JK (Juscelino Kubitschek): ‘50 anos em 5’. É algo bem intenso e com experiências e oportunidades iradas. Foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida”, resume.
 
 
Os dias de produtora executiva de eventos ficaram para trás. Atualmente morando no apartamento de um tio em São Paulo, ela deseja fechar a compra de seu próprio canto na Capital antes de partir para o intercâmbio na Europa. “É muita entrevista, reuniões e coisas para resolver. Não sei como lidar com isso, é tudo novo. As coisas estão acontecendo ao mesmo tempo e a viagem está logo aí.” As aulas em Paris começam em junho e ela deseja viajar em maio para aproveitar a oportunidade, incluindo visitar as duas irmãs que moram no Exterior e treinar o francês. Ao longo de seis meses pela Europa, o objetivo maior é arrumar estágios em vários restaurantes.
 
Elisa recebeu a revista Dia-a-Dia em casa. O estilo rápido para falar, as gírias de vocabulário e a maneira extrovertida pouco lembram a garota tímida da televisão. Entre as dezenas de ideias que pareceram passar por sua cabeça enquanto olhava para a geladeira, ela pegava os últimos ingredientes que iriam fazer parte do filé de Saint Peter com cuscuz marroquino, prato individual que levou pouco mais de 30 minutos para ficar pronto. A maneira com a qual se relaciona com a comida mostra-se natural, não havendo espaço para muitas frescuras. Parte da sofisticação foi ampliada após o estágio de dois meses no Epice Restaurante, comandado pelo chef Alberto Landgraf, a quem conheceu durante as gravações do MasterChef. A experiência nos bastidores do estabelecimento reforçou a ideia de se tornar uma cozinheira profissional. “Sou amadora, não uma chef. Tenho muito o que aprender ainda e, ultimamente, gasto uma grana passando pelos melhores restaurantes de São Paulo para conhecer os locais e ficar de olho no que estão fazendo na cozinha”, afirma, revelando que planeja abrir seu próprio espaço daqui a três anos.
 
Apesar de parecer curtir o ‘barato’ de preparar pratos, a cozinha nunca foi uma paixão para Elisa. O gosto por lidar com o paladar veio já na vida adulta, quando percebeu que os momentos de trabalho no setor poderiam ficar mais sérios. “Para mim, cozinhar não é algo para relaxar. Faço porque gosto. Não me acalma, pois fico extremamente focada. Não é terapia. É quando paro tudo para dedicar minha energia.” Sua preferência é bolar opções salgadas, principalmente combinações que possam envolver carnes, legumes assados e farofas. “Eu piro quando como doces, mas não adoro fazer. Não é algo que me empolgo para cozinhar. Se for, é sempre uma variação de fruta derretida, flambada ou assada, com um creme bem cítrico ou neutro por baixo, seja um sorvete de baunilha ou um creme de ricota temperado com mel.”
 
Formada em Filosofia, a jovem do Interior sempre aprendeu a fortalecer seus ideais. Os princípios do cotidiano também tentam ser incorporados à profissão, reforçando a preocupação em levar para todos outro conceito em torno da alimentação. “Tudo acaba ligado à sua mente, refletindo no que você pensa, como está o seu estômago e a fadiga do dia a dia. Sou uma pessoa de muitos princípios e faço questão de levantar algumas bandeiras, como a questão da alimentação saudável.” As ideias de Elisa serão muito levadas em conta em seus próximos passos, principalmente quando finalizar negociações em andamento com determinadas marcas de comida que a observam como interessante garota-propaganda. “Quero viver uma vida mais integrada, com tudo indo de acordo com o que penso. Tenho de honrar minhas ideias. Para mim, cozinhar começa desde a escolha do mercado onde você vai fazer as compras, os produtos que você usa, até a ida ao banheiro depois que você comeu e o momento quando vamos dormir. É preciso se sentir bem com todo um ciclo.” Se a filosofia é a forma como entende a vida, a MasterChef, com jeito de garota levada e espírito criativo, observa o mundo em meio a comidas saudáveis (e deliciosas) para todos.
 
Filé de Sain Peter com Cuscuz Marroquino
 
Ingredientes:
1 alho poró; 1 salsão; 1 cenoura; 1 cebola; 6 shitakes desidratados; 1 limão siciliano; 150 g de cuscuz pronto; noz-moscada à gosto; 3 tomates frescos; cebolinha à gosto; sal à gosto; azeite à gosto; pimenta à gosto e 1 peixe Saint Peter.
 
Modo de preparo:
Caldo: Refogue o alho poró, o salsão, a cenoura e a cebola


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