Verdadeiro brilhante

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Marcela Munhoz

É impressionante como algumas pessoas alcançam o que desejam. Independentemente da profissão que exercem, agem como arquitetos ou administradores, que estudam, traçam metas, recalculam rotas, avaliam o caminho, se arriscam e chegam ao resultado esperado. Claro que a vida é muito mais maleável, afável e repleta de infinitas variáveis do que um planejamento burocrático, mas a garra e o foco estão ali, conduzindo o sonhador diretamente ao seu objetivo. Para Andréia Horta, interpretar Elis Regina, um de seus maiores ídolos, era um deles. E conseguiu transformá-lo em realidade.

“Elis é uma das maiores cantoras do mundo. Foi um prazer diário correr atrás e construir este personagem, escavando cada gesto, cada voz, cada jeito e cada sentimento dela. Foi uma escavação profunda e linda. E não é coincidência ela ser um dos meus maiores ídolos. Foi justamente por isso que vivi esse personagem, porque fui atrás e lutei. Não veio por coincidência, mas por vontade mesmo”, crava a artista à Dia-a-Dia. Para interpretar Elis, Andréia mergulhou no papel de cabeça –­ e cabelo –, apesar de o corte Joãozinho não ser inédito para ela, que curtiu o estilo na adolescência, justamente inspirada em Elis.

Além disso, pelo menos por cinco meses contou com a ajuda de preparadores de corpo e de canto. “Ela aprendeu a usar a respiração e técnicas para alcançar os trejeitos e expressões marcantes de Elis”, explica Hugo Prata, diretor do longa, cuja estreia está agendada para 24 de novembro. “Desde o começo já estava decidido que a voz seria da Pimentinha, mas a atriz que a interpretasse precisaria, sim, saber cantar de verdade”, completa. Andréia Horta, assim como as outras candidatas, fez audição antes de ser escolhida. “O que mais me chamou atenção é que a nossa leitura sobre a personagem bateu muito. O talento, o rosto e o sorriso eu já conhecia, sabia que dava para chegar bem perto de como era a original, mas o fundamental para mim foi que Andréia também tinha vontade de mexer no assunto Elis. Ela queria viver seus humores, queria reviver a tragédia que aconteceu com a maior cantora do País”, explica.

O cantor Pedro Mariano, filho de Elis Regina e do pianista César Camargo Mariano, também dá o seu aval ao filme e a Andréia Horta. “O caminho que Hugo Prata – com quem convivo desde a minha infância, aliás – escolheu para contar a história foi interessante e artisticamente muito bom. Quem conhece Elis vai curtir a visão coerente e pertinente do longa; quem não a conhece terá a chance de assistir a um ponto de vista lindo e emotivo sobre a obra dela. A turma vai sair satisfeita”, analisa. “Em relação à atriz, tinha pouca informação, o que, para mim, fez toda a diferença. Claro que dá para notar o talento, a preparação e a doação de Horta para o papel, mas a atuação dela foi tão boa que só consegui enxergar a Elis na telona. Ela consegue emocionar em vários momentos e passa o quanto foi puro e intenso participar deste trabalho.”

E parece que a escolha do diretor por Andréia foi realmente das mais acertadas. Após exibição no Festival de Gramado, em agosto, público de mais de 1.000 pessoas aplaudiu a produção. De pé. “A grande expectativa era ouvir a reação das pessoas no fim e, neste aspecto, nos surpreendeu muito. Foi linda a euforia. Elas riram e choraram nos momentos em que eu realmente gostaria”, analisa o diretor. Dias depois, a atriz, que tem 33 anos, ganhou o troféu Kikito, do mesmo festival, por sua atuação como Elis. “Estou vivendo uma idade revolucionária em todos os sentidos da minha vida, dos meus pensamentos e dos meus sentimentos. É um momento lindo para essas coisas todas estarem acontecendo. Não imaginava, mas as recebo com muita gratidão e alegria. Sei que é tudo fruto de muito trabalho, não veio do nada”, conta.

O INÍCIO

Quando vinha passar férias na casa do pai, em São Caetano, a mineira, de Juiz de Fora, estava começando a colocar na ponta do lápis como gostaria que fosse seu futuro como atriz. Lá, na sua cidade, aos 11, já tinha feito peças infantis e viajava com teatro adolescente. Por aqui, observava o ator e diretor Marcos Horta em seus trabalhos na Fundação das Artes. Chegou, inclusive, a atuar ao seu lado em espetáculos para empresas. “Sabia que ela seria atriz desde sempre porque, na realidade, Andréia nasceu com este dom e talento”, derrete-se o pai, que continua na região, e também nas artes.

Aos 17, matriculada no curso de Artes Cênicas da FPA (Faculdade Paulista de Artes), veio morar no Grande ABC. Tempos depois foi convidada por diretores para participar do processo de montagem da peça Crime e Castigo, na ELT (Escola Livre de Teatro), em Santo André. Foi quando conheceu, em 2002, a diretora teatral Ester Delvechio, 55. “Fazia o curso de Direção Teatral, sob a coordenação do Antonio Araújo (Teatro da Vertigem), e a Andréia veio como atriz convidada para compor o núcleo de atores, coordenado pela atriz Lucienne Guedes Fahrer.” De acordo com Ester, a mineira sempre se destacou. “O talento já pontuava nos jogos propostos e, quando eram levados para as cenas, isso ficava visível e latente. Andréia é generosa em cena, o que não é atributo apenas do bom ator, como também do bom ser humano. Foi por situações como esta que sempre deixou claro que foi feita de uma ‘massinha’ do bem”, analisa. Durante estes anos pelo Grande ABC, a atriz leu a biografia Furacão Elis, da autora Regina Echeverria, que ela classifica como “encontro com força da natureza”.

Mas quem pensa que a vida da mineira era fácil está enganado. De­terminada, Andréia sempre teimou em se manter e ganhar seu próprio dinheiro. “Com dois braços, duas pernas e uma cabeça que pensa, achava que po­dia trabalhar para me sustentar”, declarou. Fez torta de carne moída, que não deu muito certo, e bolo de la­ranja para vender e conseguir, ao me­nos, dinheiro para a condução. “Não desejo que ninguém passe di­ficuldade, porque realmente é algo mui­to duro e limitante. Mas, ao mes­mo tempo, os pensamentos, desejos e so­nhos começam a existir com uma potência que, talvez, se tudo fosse possível e fácil, não aconteceria. Sou mui­to grata ao modo como foi o co­me­ço da minha carreira, inclusive às dificuldades financeiras, porque essa é, infelizmente, a realidade da maioria dos artistas no Brasil. A cultura tem si­do tratada às favas pelo governo, en­tão passar por isso realmente foi im­por­tante”, lembra. E continua: “Hoje co­zinho algumas coisas, embora ainda não seja uma exímia cozinheira! (risos)”.

NA TELEVISÃO

Um dos primeiros trabalhos de Andréia nas telinhas foi como filha de Juscelino Kubitschek, na série global JK. Logo de cara contracenou com José Wilker. Na Record, participou de Alta Estação (2007) e Chamas da Vida (2008). Em seguida, protagonizou a série Alice no canal pago HBO. Em 2010 voltou para a Globo na série A Cura. Na trama, Andréia interpretava a Drª Rosângela Guedes. A partir daí, emendou uma novela na outra. Fazem parte do seu currículo os folhetins Cordel Encantado, como Bartira, Amor Eterno Amor (com a engraçada Valéria), e participação especial em Sangue Bom (2013). Mas foram nos trabalhos seguintes, a série A Teia, e a novela Império, que a atriz ganhou mais notoriedade. A filha do Comendador, Maria Clara Medeiros Mendonça Albuquer­que, impulsou tanto Andréia que ela passou a ser disputada pelos diretores da Globo. E a mineira foi atrás e conseguiu o papel de protagonista, desta vez, Joaquina, em Liberdade, Liberdade.

Depois de tudo isso, Andréia relembra com carinho seus tempos de teatro e brinca com as mudanças. “Hoje, tenho menos espinhas e mais experiência (risos). Fora tudo o que isso (os trabalhos, a fama) traz para vida da gente, continuo a mesma. Quer dizer, igual nunca, não é? A gente está em constante movimento sempre, e eu também estou”. Mas, em relação aos sonhos, continua como a garota que morava em Minas Gerais. Definitamente, ela sempre soube que gostaria de viver da arte. “O que sempre me moveu em direção aos meus sonhos foi a necessidade de fazer personagens, de falar do ser humano para o ser humano. Foi essa necessidade que nunca me deixou parar ou desistir.” Ainda bem.

De pai para filha

Marcos Horta, pai de Andréia Hor­ta, ficou feliz em poder falar sobre a filha. Ele conversou com a Dia-a-Dia e relembrou momentos importantes. Confira:

Você, como ator e diretor, que conse­lhos sempre deu a Andréia?

Mesmo a distância, pois ela morava com a mãe em Minas Gerais, eu a apoiava e a incentivava. Naquela época, o conselho era apenas que soubesse exatamente o que estava fazendo e com quem. Preocupação de pai. Conselho mesmo, de maior valor, foi quando teve que escolher a faculdade e ficou na dúvida em sair de Juiz de Fora, decisão que deveria tomar se quisesse fazer Artes Cênicas. Fui enfático que não deveria desistir de seu sonho, ignorar seu dom, seu talento nem limitar seu universo.

Lembra de algum momento inesquecível da época em que vinha visitá-lo nas férias?

Havia escrito uma peça nova para minha empresa de teatro empresa­rial e criei personagem com as ca­racterísticas dela. Enviei o texto para Minas, Andréia estudou e, quando veio de férias, estreamos juntos num cliente. Inesquecível!

Por um tempo você foi ‘chefe’ dela, já que atuaram juntos. Como é ser pai e chefe ao mesmo tempo?

Tomei o cuidado, tanto por ela como pelos atores que traba­lhavam comigo, de tratá-la igual a todos. Mas como chefe, acabava exigindo mais que dos outros e, como pai, exagerando nas orientações para que cuidasse da voz, que descansasse.

No começo, ela conta que não foi fácil, que precisou até vender bolo e torta para ajudar nas contas. Acha que isso foi importante para o amadurecimento dela?

Importantíssimo. Muito independente, quis sobreviver por seus méritos e se dedicar à participação do Grupo Vertigem, dificultando, assim, seu trabalho comigo.

E quando ela passou pelo primeiro teste na Globo? O que você sentiu?

Estava chegando num cliente quando me avisou! Fiquei feliz, pois TV era sonho antigo. Mas tive que me controlar para não chorar na reunião, face à emoção com sabor de vitória, por saber de todo o movimento que fizemos até ali.

De lá para cá, ela já fez minisséries e novelas. O que vê de evolução profissional em Andréia?

Desde cedo é muito forte o seu entendimento do personagem e do contexto da dramaturgia em que ele está envolvido. E como é um exercício frequente, o aprendizado com os profissionais com quem trabalhou e a experiência de cada processo trouxeram um amadure­cimento rápido e uma densidade visível a cada interpretação.

Por que ela se destaca?

Porque tem talento, respeita sua profissão e seus trabalhos – desde quando trabalhava comigo – como poucos, estuda muito e se dedica incansavelmente. Trabalho, suor e lágrimas.

Como é para um pai ator saber que a família ganhou esse papel tão intenso?

Gostava e ouvia Elis, então, é rea­lização quase que pessoal, pela nossa ligação profissional. Êxtase de alegria e orgulho por saber que era a realização de um sonho dela e que se realizou porque se preparou e conquistou.

O que achou do filme?

Uma explosão de emoções para quem é fã de Elis, um deleite para quem não a conheceu. Tem roteiro inteligente e corajoso, com direção precisa e delicada, interpretações estupendas e, claro, um show da Andréia Horta (risos).

Você acompanha a carreira dela de perto?

Acompanho. Assisto e tenho gravado tudo o que faz, guardo recortes de jornais e revistas, matérias da internet, coordeno fã-clube, divulgo seus trabalhos etc.

Em que a Andréia de hoje se asseme­lha à garotinha que vinha de Minas passar nas férias na sua casa?

É a mesma pessoa: espontânea, divertida, simples, interessada, determinada, honestíssima, cari­nhosa, inteligente, amante da leitura e das artes.

O que como ator deseja para Andréia?

Mais cinema, aqui e fora, bons personagens e que sua ‘veia cômica’, que é ótima, seja explorada.

O que como pai deseja para a filha?

Que seja feliz da forma que ela escolher!

 



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