Em nome do pai

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Miriam Gimenes

 Miruna Genoino lança este mês livro com relato sobre a prisão do pai e cartas que os dois trocaram no período

Para a família do ex-deputado José Genoino (PT), a vida é divida entre o antes e o depois de  2005. É que foi neste ano que estourou estourou o chamado escândalo do mensalão, suposto esquema de pagamento de propina a parlamentares para que votassem a favor de projetos do governo, então sob o comando do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Genoino era presidente do partido.Apontado como um dos partici­pantes do esquema no papel de fiador de empréstimos do partido no  Banco Rural, BMG e no Banco do Brasil, o petista pediu demissão em julho do mesmo ano. Passou a ser investigado pela Ação Penal 470. E aí começou seu calvário e de toda sua família.
Condenado em 2012 a 4 anos e 8 meses de prisão por corrupção ativa, José Genoino ocuparia – desde a primeira acusação, em 2005 –, as principais manchetes de jornais, revistas, programas de TV e de rádio do Brasil e do mundo. Teve sua prisão decretada em novembro de 2013, se apresentou à polícia e cumpriu, a partir de então, a determinação em regime fechado.
Os graves problemas cardíacos, no entanto, colocaram em risco sua vida e ele teve autorização para se tratar em prisão domiciliar,  em Brasília, onde não residia e teve de buscar moradia, no início de 2014. Em maio, no entanto, ele precisou voltar à prisão. Foram quatro meses recluso até progredir ao regime aberto, ainda no Distrito Federal, para só poder retornar a São Paulo tempos depois.
Isso tudo é relatado, mas de forma intimista, por sua filha, a pedagoga Miruna Genoino, no livro que lançará dia 16 de março em São Paulo:?Felicidade Fechada (Editora Cosmos, 240 páginas, R$ 65). Na obra, ela mostra o olhar da filha que vê o pai, seu herói, sofrendo por uma situação que ele, como ela relata, jamais pensou em passar. Na obra, além de todo bastidor deste momento familiar,  estão  as cartas que trocou com ele no período de reclusão.
 
 
Em 2015, Genoino teve a pena extinta pelo STF (Superior Tribunal Federal), que acatou pedido feito pela defesa do ex-presidente do PT para que fosse enquadrado nos requisitos do indulto natalino, que prevê perdão de pena a condenados com penas leves, réus primários e que tenham cumprido parte da sentença. Confira, a seguir, o relato de Miruna sobre a pior tormenta que enfrentou neste período:
 “O momento mais difícil de todo o processo que vivi com meu pai José Genoino foi quando tivemos que contar para meus filhos Paula e Luis Miguel (na época com 5 e 6 anos), já com meu pai preso, sobre o que tinha acontecido. Eles sabiam que algo estranho estava nos cercando, sofreram dias antes com a imprensa na porta da casa dos meus pais, mas quando 15 de novembro de verdade chegou, foi como se nenhuma das preparações anteriores tivessem acontecido. Foram muitas conversas, muitas elucubrações, muitas vontades, mas quando tudo aconteceu, nada disso servia, só sobrava o desespero.
Como a gente conta para duas crianças que o avô tão amado foi preso sem ter feito nada? E como explicar que não poderíamos responder quando eles o veriam de novo? Como é que a gente fala de esperança quando não temos? Nós tentamos. Por nós eu falo de mim, meu marido Miguel, minha mãe Rioco, meu irmão Ronan, minha irmã Mariana e meu cunhado Pedro. Nós todos lutamos desde aquele 15 de novembro, até hoje, por mostrar um caminho de confiança para nossos pequenos. E sem nem percebermos, ao querermos ajudá-los, acabamos sendo muito mais ajudados por eles. Tudo teria sido muito mais difícil sem estas duas minhas crianças por perto.
Nós choramos muito, nos desesperamos, ficamos sem dormir, comer, sem trocar de roupa. Perdemos por vezes a noção de horas, de dias, mas nem tudo pudemos deixar de lado. No meio do turbilhão Paulinha fez 7 anos e tivemos que às pressas dar um jeito de cantar os parabéns para ela com um bolo bem gostoso, enquanto vivíamos o processo de internação de meu pai devido às péssimas condições de saúde em que ficou depois da prisão.  No meio da incerteza fizemos uma festa de 6 anos para meu filho Luismi, com o tema da Copa do Mundo, com meu pai longe, preso, sozinho, na (Presídio) Papuda. Sem saber onde ele estaria no dia seguinte, nos organizávamos e fazíamos um jantar gostoso, jogávamos um jogo de tabuleiro com eles, íamos brincar na areia, fazíamos cosquinha, inventávamos vídeos esquisitos. Vivíamos.
Por quê? Porque eles não tinham culpa e porque meu pai nos pediu. Sempre. Não pediu só pelos netos, mas eles acabavam nos obrigando mais a cumprir nossa promessa: não deixar de seguir em frente. Não deixar de viver a vida. Não deixar que nada mais de ruim aconteça além da injustiça dele. “Se vocês perderem a vida de vocês por esse processo, aí é que eu me acabo mesmo”. Era o que meu pai dizia. Nada de viver no inferno, no enterro, no desespero. Seguir em frente. Fazer do rir, de um bolo, de uma festinha, de um jogo de futebol, uma forma de resistência. “Eles querem é nos destruir, mas nós é que vamos decidir se abaixamos a cabeça ou não. E não podemos abaixar.”
Tudo isso sempre me fez ter a certeza de que mesmo desesperada eu não podia deixar de escrever, não podia deixar de registrar ali, em cada momento, nossa luta, nossa resistência, nossa força. A escrita foi a maneira que encontrei de resistir, de não deixar que ficasse no ar sem resposta, esta mensagem injusta de que meu pai era culpado. Minhas palavras foram marcando a cada momento o orgulho de sermos nós, de sermos Genoino. O orgulho que temos e sempre teremos de defender nossa história. Eu escrevia, Paulinha e Luismi desenhavam, pintavam, todos nós construíamos em cada pedacinho de dificuldade, pequenos redutos de conforto e de união.
Hoje meu pai está solto, mas nossa luta continua. Continuamos a lutar para que sua história seja recontada com justiça. E continuamos, claro, agora junto com José Genoino, e também com minha cunhada Marília, que entrou nas nossas vidas, a cuidar, e muito, das pequenas e grandes felicidades para a Paulinha e o Luismi. A justiça vai chegar.”
Saiba mais...
Durante o período da decretação da prisão de José Genoino, em 2013, Rioco Kayano, companheira dele, teve a ideia de bordar num grande tecido o pássaro Fênix – aquele que renasce das cinzas – com a frase do poeta Mário Quintana: “Todos que estão a atravancar o meu caminho, eles passarão, eu passarinho”, citada na carta de renúncia de Genoino ao cargo de assessor do Ministério da Defesa. Homens, mulheres, crianças, idosos, militantes, amigos, pessoas públicas, juntaram-se, na ocasião, bordando pássaros coloridos numa alusão à luta pela liberdade na trajetória política da família. A imagem do tecido  virou a capa do livro.
 



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