Leve suas crenças para darem uma voltinha

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Marcela Munhoz

 

 

É inacreditável como a Capital paulista é fascinante. Entre suas avenidas movimentadas existem casas, prédios, construções, igrejas, teatros e até castelos com histórias, no mínimo, intrigantes. Crimes hediondos, incêndios e mortes não resolvidas transformam esses lugares em pontos que muita gente quer passar bem longe. Mas existe louco para tudo. Para quem pretende quebrar de vez o tabu e descobrir o que, de fato, aconteceu ali foi criado o SP Haunted Tour. Se identifica? O próximo acontece no dia 25 de março, com saídas às 19h e 21h30 do Hotel Tryp Paulista (www.sphtour.com).

Promovido pela Rhoxxi Turismo, o passeio já é diferente por ser à noite. Os aventureiros rodam pelos principais locais mal-assombrados durante duas horas em ônibus de 40 lugares com guia fantasmagórico: o Angelo. Interpretado (muito bem, aliás) pelo jornalista e ator Rogério Cantoni, o ser, que viveu há alguns séculos, acompanha todo o tour com uma luminária, oferecendo serviço de bordo – incluso no preço de R$ 80 por pessoa –, dando informações muito curiosas, fazendo selfies e destilando, vez ou outra, piadas infames. ‘Por favor, senhor, levante o encosto. Aliás, ele vai te acompanhar até depois que o passeio acabar’, ri. Os participantes também contam com a presença de uma guia turística humana mesmo.
 
Existem dois tipos de itinerários, a gosto do cliente. A maioria dos pontos é mostrada de dentro do ônibus mesmo – segundo Cantoni, o acesso a alguns locais não é permitido durante a noite. Uma pena. Mesmo assim, as histórias são surpreendentes e fazem o passeio valer a pena. A equipe de reportagem da revista Dia-a-Dia se atreveu a participar do tour que passou pelos edifícios Joelma e Martinelli, Theatro Munici­pal, Cemitério da Consolação, Câmara Municipal, Casa da Yayá, Pa­lá­cio da Justiça, Pateo do Collegio, Capela dos Aflitos (esse fomos a pé). No outro roteiro, também estão o Edifí­cio Andraus e o Castelinho da Rua Apa.
 
Durante o trajeto, os guias vão contando histórias como as das 13 pessoas que morreram queimadas no elevador do Joelma em 1974 – antes da construção, era cemitério indígena e depois aconteceu o crime no poço do lugar com assassinato de toda uma família. A loira que morreu e até hoje rondaria o Edifício Martinelli, que teve seus tempos de glória, mas depois virou um cortiço, com lixo e corpos jogados no vão. Mais adiante sabemos de Sebastiana de Melo Freire, a Dona Yayá. Uma mulher muito rica que viveu na década de 1930, mas que aos 32 anos foi considerada louca. Os médicos da época a trancaram dentro da sua própria casa e por lá ficou, durante 40 anos. Hoje o local, que fica na Rua Major Diogo, 353, abriga o Centro de Preservação Cultural da Universidade de São Paulo.
 
No bairro Liberdade o ônibus dá uma parada para que os turistas conheçam o Beco dos Aflitos e a história de Francisco José das Chagas, o Chaguinhas. Por reivindicar seus direitos como cabo no período do Império Português, ele foi condenado à forca. Na noite anterior, dormiu na igreja, que fica em rua sem saída, nomeada de Capela de Santa Cruz das Almas dos Enforcados. Três vezes a corda se rompeu durante a tentativa de enforcamento e a população clamou por sua libertação, dando o nome ao bairro. A propósito, Chaguinhas morreu a pauladas. Aliás, lá fica o Cemitério dos Aflitos, onde só eram enterrados os pobres, escravos, animais e bandidos. Os ricos e nobres dormiam eternamente no Cemitério da Consolação.
 
Para deixar o passeio ainda mais arrepiante e interessante, o fantasma Angelo entrevista ao vivo convidados especiais, como os caça-fantasmas João Tocchetto e Rosa Maria Jaques, que falaram sobre suas histórias com os espíritos. Segundo eles, muitas vezes as almas atormentadas voltam ao local onde moraram quando vivos. E também com o papilocopista Antônio Maciel. Ele explica a importância da ciência que trata da identificação humana por meio das impressões digitais.
A grande sacada do SP Haunted Tour é fazer as pessoas refletirem e pensar sobre quais são os verdadeiros fantasmas que assombram a sociedade hoje? Muitos vêm da nossa própria mente. Quem passeia por São Paulo com os olhos atentos vai ficar mais angustiado com a quantidade de sujeira, indigentes e violência do que com a mais horripilante história de terror. Tanto que a última parada do ônibus é perto do Pateo do Collegio que, à noite, abriga legião de seres humanos bem vivos. Dalí também dá para enxergar o Impostômetro. Esse sim arrepias os cabelos.



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