I Love Louça

Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar A- A A+

Compartilhe:

Élvis Clóvis

 Arlinda reclamava que nunca cheguei perto da cozinha. "Você não lava um copo, Elvis!" Reconheço que tinha um receio natural de macho. E se vazasse na internet minha foto lavando uma forma de bolo? Certa vez, Arlinda viajou com as amigas. Já nas primeiras oito horas de sua ausência, uma pilha de louça superava a altura da torneira. Não havia um talher limpo. No quarto dia decidi encarar a esponja. Conchas e pratos brotavam. Aquilo não acabava. Parei e corrigi minha pose de homem com H. Quando me voltei para o monte de panelas, uma delas me chamou a atenção. Não era nova. Devia ter seus 30 e poucos anos. Segurei-a diferente das outras. Lavei, enxuguei e deixei o resto lá. Sentei com ela no sofá e a admirei por dezenas de minutos. Algo em mim estava diferente. Fiquei com medo e corri para o quarto, mas uma força me trouxe de volta à sala. Abracei a panela. Beijei-a ardorosamente. Dormi com ela aquela noite e na noite seguinte, quando Arlinda voltou e nos flagrou. Me separei de Arlinda, mas deixei tudo para ela, exceto a panela e um joguinho de copos com os quais montamos uma família num quarto e sala bem pobrezinho, mas tudo muito limpinho, brilhando e com muito amor.

 

NO BANHO
Era para ser um banho relaxante. De repente, o grito interminável de Fátima, minha segunda mulher, “NNNNNNAAAAAAAAAAAAA- NNA – NANA – NA – NA (Fátima é gaga) NÃÃÃÃÃOOOOO!!!!! O pavor invadiu minha mente. Pensei no gás ligado, a panela no fogo. Meu instinto de sobrevivência mandou sair correndo do banho. Me enrolei na toalha, passei pelo quarto do bebê e enrolei-o num lençol. Desci os 23 andares correndo, às vezes tropeçando na toalha, às vezes no lençol do bebê e, por fim, no próprio bebê. Mas chegamos ao térreo com vida. Fui à rua, onde dois gatos em acasalamento me olhavam curiosos e irritados. Olhei para cima procurando fumaça. Ainda podia ouvir Fátima: NNNNNNNNNAAAAAA-NA-NA... Voltei à portaria do prédio. “Seu Clóvis, algum problema?, perguntou Enéas, o vigia da madrugada. Disse que ligasse aos bombeiros ou ao Samu...e pedi o aparelho do interfone. “Fátima, o que aconteceu, querida?” E ela: “NNNÃÃÃÃÃOO É PRA DEIXAR O COADOR DE PANO SUJO DENTRO DA PIA, ELVIS!!! Desliguei. “O senhor ainda vai querer os bombeiros, seu Clóvis?” "Liga pra um juiz de paz, Enéas".



Diário do Grande ABC. Copyright © 1991- 2017. Todos os direitos reservados