Ser ou ser não há questão

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Miriam Gimenes

Se a atriz Carol Duarte fosse fazer a primeira cena do terceiro ato de Hamlet, de William Shakespeare (1564-1616), teria de usar em sua interpretação uma licença poética. Em vez de declamar uma das frases mais famosas da literatura mundial, poderia adaptá-la de acordo com a história de sua personagem Ivana/Ivan, de A Força do Querer, da Rede Globo. Ou até mesmo de sua vida pessoal. Para ambos – tanto na vida real quanto no folhetim – só há uma opção: ser ou ser. Não há questão.

E ela, que tem 26 anos, nasceu em São Paulo, mas cresceu em São Bernardo, mostra isso todos os dias. Na televisão, onde a personagem passou por metamorfose, principalmente nas últimas semanas – com cenas que deram picos de audiência e foram muito comentadas nas redes sociais –, Ivana finalmente assumiu sua transexualidade, ainda que não tenha tido o apoio da família. “O que vemos hoje em dia é que a sociedade marginaliza. Nas escolas e faculdades muitas vezes uma pessoa trans sofre muitos preconceitos e violências que decorrem da ignorância e despreparo das instituições para lidar com o tema. São muito felizes os casos em que a família apoiou, principalmente, no que diz respeito ao futuro da pessoa trans.” Este suporte de amor, para ela, é crucial nestes casos.

Para compor o papel, Carol diz ter conversado muito com pessoas trans, mais homens do que mulheres. “Todas as histórias que tive contato foram muito importantes. Digo desde o que a pessoa me contava, fatos da vida, acontecimentos marcantes, até os silêncios que ela fazia. Uma experiência muitas vezes é contada nas entrelinhas. Nem tudo conseguimos colocar em palavras, digo isso porque me chamou atenção e é muito precioso na construção de um personagem, ainda mais no momento da trama em que a Ivana não consegue nominar sua agonia. As palavras que usamos para falar sobre alguma experiência são sempre resultado de um transbordamento de sentimentos e sensações.” Ela também assistiu a muitos vídeos. “Acompanho alguns canais há um tempo e eles falam sobre suas sensações, sobre o dia a dia, contam as modificações, os pormenores são muito ricos”, acrescenta.

Para Glória Perez, autora da novela, a atriz foi uma escolha acertada. “Carol é visceral. Na interpretação dela vemos sensibilidade, nuances, a compreensão profunda do que o texto diz. Ela emociona sempre, a cada fase que a personagem atravessa. Além disso, como é atriz de teatro traz todo um trabalho de corpo que é essencial para essa personagem”, declarou a autora com exclusividade para a Dia-a-Dia.

E ela – que nos palcos, entre as últimas produções, fez A Visita da Velha Senhora e As Siamesas: Talvez eu Desmaie no Front –, por sua vez, diz estar agradecida de ter estreado desta maneira na televisão. “A Glória Perez é uma autora muito corajosa e inteligente, fico muito feliz e honrada de estar fazendo a Ivana, porque acredito que possa ser uma porta de diálogo dentro da casa das pessoas, que ela seja uma faísca para que as pessoas respeitem e busquem mais informação sobre a transexualidade. E que a Ivana possa construir para a luta dos trans contra a transfobia.” O fato é que, pelo que tem sentido das pessoas na rua, o resultado tem sido positivo.

Há pouco, a Defensoria Pública de Rondônia, por conta do processo de mudança de nome para Ivan, usou o exemplo da personagem para se colocar à disposição para ajudar quem passa pela mesma situação e precisa ajuizar a ação de retificação de registro, além de alterar o nome e o sexo. Carol comemorou. Mas a sociedade, no entanto, tem muito o que melhorar, na sua opinião. “Tanto no que diz respeito a leis que assegurem à comunidade respeito e segurança, que abarquem essa especificidade, porque muitos crimes decorrem de transfobia e são enquadrados como crimes comuns sem que exista punição maior em razão do preconceito. Essas violências estão em muitas instâncias. Vão desde piadas mal-intencionadas a fim de diminuir o outro até a agressões e mortes. O preconceito, muitas vezes, vem da ignorância. Além de políticas de Saúde pública voltadas para essa comunidade.” Ela tem razão.

Há pouco o juiz Waldemar Claudio de Carvalho, do Distrito Federal, causou polêmica ao conceder liminar que torna legal que psicólogos ofereçam terapias de reversão sexual, a tal da ‘cura gay’. E a atriz, que após a transformação da personagem assumiu também a companheira Aline Klein, com quem está há quatro anos, passou a fazer postagens no Instagram – onde tem quase 600 mil seguidores – em protesto à decisão do magistrado. Em uma delas aparece com o rosto coberto de argila. “Passar argila na cara é um dos tratamentos da cura gay. Se você é gay tente também e compartilhe com a gente sua cura. Sua pele vai ficar ótima, bicha! (esse post contém ironia).”

EM CASA

Carolina Duarte foi morar no Rio de Janeiro por conta da novela, mas se lembra com carinho do Grande ABC. “Fui muito feliz (aqui), fui criada em São Bernardo, passei minha infância e adolescência, minhas memórias são as melhores. Comecei a fazer teatro em São Bernardo e no Grande ABC. Tenho vários amigos de infância que estão na minha vida até hoje que são de lá, além da minha família que continua morando em São Bernardo.” Ela não sabe, no entanto, precisar o momento em que decidiu ser atriz. “Me lembro de acordar animada sabendo que depois da escola eu iria para o teatro. Chegava a matar aula no colégio e pegava dois ônibus para ir para o teatro, feliz da vida. Quando me formei no Ensino Médio sonhava fazer Artes Cênicas na Unicamp, mas não passei. Continuei me dedicando e querendo ser atriz, e as coisas foram caminhando. Fui sendo levada pela paixão que o teatro me despertou e a imensa admiração por pessoas que passaram pela minha vida e se dedicam à arte.”

Foi após ver sua atuação no teatro que um produtor de elenco da Globo propôs que ela fizesse ficha no banco de talentos. Após outros dois testes rejeitados, ela, enfim, foi escolhida para fazer Ivana. E agora, que a novela chega em sua reta final, Carol já começa a pensar no futuro. Almeja trabalhar em projetos que a movam, que a instiguem. “E ter parcerias com pessoas que eu admiro, mergulhar em universos que revolucionem a nossa visão de mundo, que imaginem alguma outra perspectiva de algo novo e melhor do que vivemos, para que a gente possa ter mais esperança no futuro.” Em sua lista de objetivos está interpretar mulheres que mudaram o mundo de alguma maneira. O primeiro passo, com certeza, já foi dado.




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