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Marcela Munhoz

‘Capitão, vamos deixar os considerando e entrar nos finalmente...’. ‘O senhor coronel vai mandar eu ir embora daqui?’. ‘Por oramente, não.’ O diálogo entre o prefeito corrupto de Sucupira, Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), e o matador de aluguel Zeca Diabo (Lima Duarte) em um dos 178 capítulos da novela Global O Bem-Amado hoje passaria absolutamente despercebido. Mas na época em que foi ao ar, em plena ditadura militar (1964-1985), incomodou bastante. Em julho de 1973, a censura federal proibiu que as palavras ‘coronel’ e ‘capitão’ fossem pronunciadas em alguns episódios. Os militares consideraram que o autor da trama, Dias Gomes, estava se referindo às patentes do Exército, quando, na verdade, simbolizavam os coronéis do sertão da Bahia, que impunham suas vontades e tinham grande influência por causa do poder.

Dois anos mais tarde, em 1975, a novela Roque Santeiro foi proibida de ir ao ar. Também escrita por Dias Gomes e Agnaldo Silva, só pôde ser exibida dez anos depois. Lima Duarte, desta vez, interpretou Sinhozinho Malta. O dono da cidade de Asa Branca balançava as pulseiras de ouro para demonstrar seu autoritarismo. O tique teria sido inspirado em uma famosa censora.

O homem que deu vida a Zeca Diabo, a Sinhozinho Malta e a tantos outros personagens que foram de extrema importância para a dramaturgia empresta seu olhar expressivo e grande bagagem histórica para a capa da Dia-a-Dia de novembro. Lima Duarte passa seu tempo cuidando da casa, no Interior de São Paulo. Hoje, o ator mineiro se divide entre o Josafá, da novela O Outro Lado do Paraíso, e admirar fotos dos netos e bisnetos no celular. Perto dos 90 anos, ele confessa que ainda se emociona ao ser sempre chamado a atuar. “Tenho orgulho e muita gratidão por, nesta idade, ser requisitado e convidado pelos autores.”

Além de estar nas novelas proibidas, durante a ditadura, Lima também participou do Teatro de Arena, em São Paulo, considerado de resistência. Anos se passaram, a censura foi oficialmente extinta no Brasil, mas ainda o que se vê, especialmente nas artes, parece sessão do Vale a Pena Ver de Novo. Na reportagem Especial desta edição, entrevistamos especialistas que tentam entender qual roupa a censura veste em pleno 2017. “Pode ser um livro, um espetáculo, uma obra ou uma música. Quando há interdição é censura”, explica Cristina Costa, coordenadora do Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura da USP.

Liberdade de expressão, está aí a grande questão. Em época em que tudo, teoricamente, pode ser falado e postado, na verdade, não está sendo assim. Tudo indica que a solução, só para variar, tem a ver com a palavra respeito. Concorde ou não, deixe o outro, ao menos, falar...

 

Boa leitura!

Marcela Munhoz

4435-8364

 

 



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