Seu Lima é unânime

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Marcela Munhoz

Desde que o mineiro Ariclenes Venâncio Martins deu as boas-vindas ao seu ‘eu artístico’, a dramaturgia no Brasil nunca mais foi a mesma

'Senhoras e senhores, boa noite. A PRF-3-TV, emissora associada de São Paulo, orgulhosamente apresenta neste momento o primeiro programa de televisão da América Latina.’ Foi com essa abertura que, no dia 18 de setembro de 1950, começava a história da televisão no Brasil. Uma ou outra pessoa tiveram acesso ao aparelho e outras pouquíssimas trabalharam para que tudo fosse realmente marcante.

Além do próprio empresário responsável por esta revolução, Assis Chateaubriand (1892-1968), e da cantora Lolita Rodrigues, 88, que entoou o Hino da Televisão, outros nomes fizeram parte da festa na TV Tupi. Hebe Camargo (1929-2012), Mazzaropi (1912-1981) e um jovem de 20 anos, vindo de Nossa Senhora da Purificação do Desemboque e do Sagrado Sacramento ‘tocaram’ o TV na Taba, programa de variedades dirigido por Cassiano Gabus Mendes (1929-1993). O tal mineiro era ninguém menos do que Lima Duarte, 87.

“Vários dos meus colegas de trabalho, como Vida Alves (1928-2017) e Wálter Forster (1917-1996), já não estão mais conosco, partiram”, lastimou o ator em entrevista à Dia-a-Dia. Lima, sempre que pode, revisita sua memória afetiva, suas origens. Ele gosta muito de recordar daquele 18 de setembro e responde imediatamente que a melhor lembrança de toda a sua trajetória artística é, justamente, ter participado do começo de tudo. “Tenho muitas histórias – e nenhum arrependimento – durante os últimos 70 anos de carreira, mas os fatos de ter vivenciado o ínicio da televisão e de ter começado no rádio me acompanham sempre.”

Para entender essa paixão de Lima – que, atualmente, está no elenco de O Outro Lado do Paraíso, novela das 21h, da Globo – é preciso voltar para a infância dele, lá no Interior de Minas, quando começou a ‘atuar’ para o avô, que não sabia ler jornal e queria ter notícias de a quantas ia a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Ele intepretava os soldados. Daquela época, se recorda também de ver seu pai usar terno e gravata para ouvir rádio, tamanha a importância que a família dava ao meio de comunicação. A mãe, porém, foi quem realmente plantou a sementinha da dramaturgia no coração do mineirinho. Segundo ele, a progenitora atuava no teatro de um grupo espírita e interpretava clássicos. Em alguns, os dois participavam juntos. Foi em Ladra, quando Lima tinha 12 ou 13 anos, que ela lançou olhar que ele nunca mais vai esquecer. “Foi a bênção de uma mãe que vê um filho crescer. Esse olhar me guia até hoje.”

Quando a guerra terminou, o pai, em sua simplicidade e vontade de ver o filho evoluir, meteu o adolescente em um caminhão de manga rumo a São Paulo. Lima desembarcou no Mercadão, ganhou uns trocados ajudando a descarregar frutas e loguinho foi parar no rádio, inicialmente na sonoplastia. Foi lá que o ator realmente nasceu. Por dica de Oduvaldo Vianna (1936-1974) trocou o nome de batismo. Desesperado por não poder utilizar Ariclenes Venâncio Martins, ligou imediatamente para a mãe, que disse: ‘Use o nome do meu guia espiritual, Lima Duarte’.

E assim, mais do que abençoado, ele trabalhou na TV Tupi por intensos 22 anos, participou, entre outras obras, da primeira novela, ao vivo, Sua Vida Me Pertence (1951), e, em 1972, se mudou para a Rede Globo, de onde nunca mais saiu. Antes, porém, ofereceu seu talento para várias outras artes. Fez Teatro de Arena por muitos anos – a convite irrecusável do amigo Chico de Assis – participando de grandes obras, como O Testamento do Cangaceiro (1961) e Arena Conta Zumbi (1966).

Na época, também foi dublador. Emprestou a voz para personagens como o gato Manda Chuva, o jacaré Wally Gator e o cão Dundum (parceiro da Tartaruga Tuchê). Além disso, chegou a dirigir, entre outros trabalhos, as novelas O Direito de Nascer (1964-1965) e Beto Rockfeller (1968-1969).

Como ator, os personagens marcantes são incontáveis. Sua estreia na Globo – emissora onde também apresentou, na década de 1980, o programa Som Brasil – foi como Zeca Diabo, em O Bem Amado (1973). Criado pelo escritor Dias Gomes, o cangaceiro e matador da cidade de Sucupira, recorria sempre ao seu Santo Padim Pade Ciço Romão Batista.

Em 1985, deu a vida a outro tipo que nunca mais foi esquecido: Sinhozinho Malta, em Roque Santeiro. A novela também foi escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva. Eles se basearam na peça O Berço do Herói, de Gomes, que já havia sido censurada e proibida em 1963 pela ditadura militar. A trama para a televisão seguiu pelo mesmo caminho: era para ter entrado no ar dez anos antes, em 1975.

Um tempo depois entrou no ar a obra O Salvador da Pátria (1989) e, com ela, um dos papéis mais aplaudidos de Lima: Sassá Mutema. O personagem contracenou com a professorinha Clotilde, interpretada por Maitê Proença. Com seu jeito simples e puro de homem criado na roça, Sassá Mutema conquistou o coração do público e do próprio ator, que sempre adorou interpretar tipos do campo. Por isso também é fã incondicional de Guimarães Rosa. Ele reuniu muitas vezes amigos em casa para ler as obras do escritor. “Tudo o que eu faço é ser fiel à caboclada. Guimarães é a minha pátria”, citou durante entrevista ao programa Persona em Foco, da TV Cultura.

Na novela Meu Bem, Meu Mal (1990), de Cassiano Gabus Mendes, interpretou o milionário Dom Lázaro Venturini. O personagem disse uma das frases mais memoráveis da novela: ‘Eu quero melão!’, que virou meme agora, nos tempos de internet. Na sequência, Lima Duarte foi Afonso Lambertini, em Da Cor do Pecado (2004), fez também o prefeito Viriato Palhares em Desejo Proibido (2007), um brâmane em Caminho das Índias (2009) e o vilão Max Martinez em Araguaia (2010).

No cinema, fez mais de 40 filmes. O primeiro, Quase no Céu, é de 1949. Em 1983, ganhou prêmios com o Sargento Getúlio. Vestiu o papel de Chico Amorim em 2011 no filme Assalto ao Banco Central. No último, em 2013, contracenou com Wagner Moura em A Busca.

“O espectador me tem como um velho amigo, que vem contar piada. Num momento tão dificil como vive o País, o telespectador olhar para mim e dizer ‘olha esse aí, lá vem falar aquelas besteiras dele’ é o que eu gosto”, conta. Aos 87 anos e com currículo invejável, Lima Duarte mantém a humildade e a modéstia que o acompanham desde a vinda no caminhão de manga. Ele afirma que nunca sonhou estar trabalhando ainda, em pleno horário nobre, e sendo venerado por todos.

“Realmente não imaginava. Tenho orgulho e muita gratidão por, nesta idade, ser requisitado e convidado pelos autores da Globo. Sempre são grandes surpresas, como estar fazendo, pela primeira vez, um trabalho do Walcyr Carrasco. Estou achando ótimo.” O diretor também não esconde sua admiração por Lima. “Estou emocionado com atuação de Lima Duarte e Marieta Severo. Que maravilha assistir aos dois em uma cena que escrevi. É uma honra!”, postou esses dias no seu Twitter.

TÁ CERTO OU TÁ ERRADO?

Lima Duarte costuma dizer que tem todos os personagens dentro de si. Está se preparando para estrear, em janeiro na Globo, a minissérie 13 Dias Longe do Sol. Ele fará Dr. Rupp, médico e dono de um prédio em construção que desmorona e deixa feridos. Por agora, o personagem que está mostrando serviço é Josafá, em O Outro Lado do Paraíso. O avô de Clara (Bianca Bin) é dono de um bar de beira de estrada em Pedra Santa. Vai sofrer nas mãos de Sophia (Marieta Severo) e se desesperar com o sumiço da neta. “Ele (Josafá) aprendeu a amar com as montanhas, lagos e rios. Dizem que onde ele pisa está cheio de diamantes e ouro, mas ele não procura por isso. Ele viveu a vida dele longe, e nesse longe está o primeiro amor, a Mercedes (Fernanda Montenegro). Os dois procuram no longe encontrar um ao outro, e se amarem ainda, sem a manifestação imediata do amor, que é transar. Se eles não têm isso, ficou o quê? O amor”, filosofa.

Além da Fernanda, ele está na novela também com Laura Cardoso, amiga há dezenas de anos. Quando deu entrevista para a Dia-a-Dia (na edição de março), a atriz não escondeu sua admiração por Lima. Entre todos os parceiros e parceiras, escolheu ele como o que mais se sentiu à vontade. “Fizemos coisas lindas na televisão.” Para Lima, invés de a novela chamar O Outro Lado do Paraíso, deveria, por conta da reunião deste trio, se chamar “300 anos de amor”. Na vida pessoal, o artista, que teve quatro grandes relacionamentos, se denomina como solitário. “Vivo sozinho e só penso nos personagens.” Ele se divide na ponte aérea São Paulo-Rio. “Moro num sítio no Interior da Capital paulista, estou sempre me deslocando.” Apesar de morar sem ninguém, não se sente assim. “Tenho porção de filhos e netos que vivem na Austrália e agora que descobri o celular, fico vendo as fotos deles.” Lima tem quatro filhos, entre eles Débora Duarte, vários netos – a atriz Paloma Duarte é uma – e bisnetos.

Já no papel de Josafá, no último 18 de setembro no Projac, um saudosismo misturado à lamentação invadiu o ser e pôs Lima Duarte reflexivo. “Outro dia estava gravando, e chegaram para mim dizendo: ‘Grava aí, porque depois temos que derrubar esse cenário’. Gravei várias cenas, tinha uma televisão entre os objetos e me lembrei da primeira transmissão. Quando contei isso, ninguém falou um ‘A’'”. Para ele, a TV e o rádio nunca mais foram os mesmos. “Viraram outra coisa. O horário nobre do rádio agora é às 9h. O meu rádio acabou, o do Ary Barroso (1903-1964), esse terminou. A televisão como era antes também. A internet, o Netflix e a Globo Play acabaram com a televisão. Sobre o começo da internet que estou assistindo agora, esse não contem comigo (risos)”, diz Lima, que afirma não estar em nenhuma rede social. “Só tem um monte de besteira a respeito de mim, a respeito do mundo e a respeito de tudo.” O que ainda falta nesta vida para o senhor fazer? “Quero ficar mais com a minha família, com os meus netos e bisnetos. Curtir a natureza e viver, apenas.” Ah, outra coisa que Lima Duarte não abre mão é atuar. “Amo trabalhar, amo o meu ofício.” Está certíssimo!

 




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