A arte de fazer perguntas

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Marcela Munhoz

Com o objetivo de ajudar a realizar metas em espaço curto de tempo por meio de técnicas que começam com questionamentos, o coaching está ganhando cada vez mais adeptos no Brasil

“Tem coaching em todas as profissões, por isso não pode ser comparado a um tratamento psicológico. O processo acontece em torno de um objetivo e, dependendo dele, a gente usa técnicas para conduzir a pessoa ao que ela quer. Todo mundo sempre deseja contar a sua história, mas às vezes tem medo. O que eu faço é ajudar a superar o medo.” Essa frase foi dita por Adriana, personagem da atriz Julia Dalavia, na novela das 21h, O Outro Lado do Paraíso, na Globo. Além de advogada, ela é coach (treinadora, na tradução literal) de vidas. Justamente por causa da trama de Walcyr Carrasco – que fez o curso – o assunto virou polêmica. É que outra personagem, a Laura (Bella Piero), lembrou que tinha sido abusada sexualmente na infância durante uma sessão. Os psicólogos, por meio do CFP (Conselho Federal de Psicologia) mandaram carta de repúdio à emissora, alegando que a Globo “prestou um desserviço à população brasileira” ao tratar com “simplismo" o sofrimento psíquico da personagem.

O IBC (Instituto Brasileiro de Coaching), por meio do presidente José Roberto Marques, reconheceu à reportagem da Dia-a-Dia que o ideal é ter acompanhamento de terapeuta em casos como o da novela e complementou: “O coach só consegue ir a níveis profundos se estiver preparado. Se eu atendo alguém cujo caminho é esse, preciso indicá-lo a um especialista”, disse. Como psicóloga, psicopedagoga e coach, Sandra Sant’Ana, que atende em Santo André, também não concordou com a forma com que o tema foi abordado, principalmente por causa da hipnose. “Nós, psicólogos, estudamos tanto o comportamento humano e os processos mentais que merecemos respeito. Lembrando que coach ou hipnólogo sem formação em Psicologia não podem tratar traumas psíquicos.”

Polêmicas à parte, o coaching está fazendo a cabeça de muita gente no Brasil, dos dois lados do ‘balcão’. Tem os que, com a crise financeira, enxergaram na prática uma solução, e os que recorrem ao método para evoluir. Karine Francisco, 39, de São Bernardo, trabalhou na área corporativa por 15 anos e decidiu fazer curso para melhorar a liderança. Lá, ela percebeu que era mais. “Descobri que podia ajudar as pessoas para que vissem o potencial que têm”, comenta Karine, que utiliza ferramentas mais terapêuticas baseadas em saúde quântica, como barra de acess e thetahealing, para ajudar os coachees (pessoa que passa pela experiência do coaching) a concluírem seus objetivos. Sua especialidade é desenvolvimento pessoal. “São ferramentas potentes que ajudam a desbloquear aspectos limitantes da vida. Meus coachees se conhecem melhor e se transformam. Acho que todo mundo deveria viver essas experiência para se redescobrir e trazer mais ação à vida.”

Existem dois grandes grupos na área: o business e o life. O primeiro cuida mais da parte corporativa, dos nichos de mercado e atua em escritórios, times e negócios. O segundo, o da Karine, tem foco nas pessoas e ajuda o coachee a desenvolver habilidades pessoais e concluir objetivos, como emagrecer e se relacionar, por exemplo. Existe até coach de almas. Daniel Ramos, 36, de Santo André, é coach de atletas. Ele possui formações voltadas ao condicionamento mental e emocional. “Tenho exemplos de pessoas que estavam no ostracismo, apesar de terem talentos natos, e que conseguiram com o coaching ressignificar crenças de identidade, de capacidade ou merecimento e maximizaram seus resultados físicos após poucas sessões.”

Em ambos os casos, o de negócios e o de vida, o ‘tratamento’ começa com questionário-chave, quando o coachee reconhece seu estado e seu objetivo. Um dos exercícios é imaginar uma cena feliz e tentar descobrir como fazer para concretizá-la. O cliente já sai da sessão com ações a serem realizadas. Uma delas é um tal de diário de bordo, com perguntas – do tipo: por que valeu a pena viver hoje? – que devem ser respondidas todos os dias antes de dormir. Dependendo da evolução, são de oito a 12 sessões, em encontros semanais ou quinzenais. Durante o processo, a pessoa passa por cinco etapas: autoconhecimento, estabelecimento de objetivos, reconhecimento dos pontos fortes e de melhoria, alinhamento entre as esferas pessoal e profissional, além da percepção de que o coaching é evolução contínua.

“A maior ferramenta do coach é saber perguntar, se conectar e criar vínculo com o coachee”, resume José Roberto Marques, do IBC. “Fazer coaching é quando contrato alguém para me ajudar a conseguir o que quero de forma rápida. É um treinador da mente que estimula a pessoa a pensar mais sobre si, sobre o outro e sobre a vida, propondo ações práticas. Quem não quer ter alguém apoiando e motivando? Todo mundo precisa ser amado”, complementa. E quem pensa que a relação entre coach e coachee é sempre perfeita, está enganado. “O vínculo pode ser quebrado no meio do processo. Não é todo cliente que se adapta ao coach e vice-versa.”

O master coach de 51 anos seguiu na área após experiência de quase morte há 19 anos. “Naqueles minutos, mudei a forma de ver o mundo. Meu objetivo é que as pessoas mudem o padrão do pensamento antes de ficarem doentes”, conta Marques, que comemora a enorme procura pelos cursos no instituto, que tem 11 anos. Segundo ele, nos últimos três meses o aumento foi de 50%. O investimento? Gira em torno de R$ 25 mil. “É como uma faculdade, temos trabalhos de conclusão, avaliações. Na primeira formação a pessoa já pode atender. Geralmente o coach cobra cerca de R$ 3.000 por, no mínimo, dez sessões”, detalha o presidente do IBC, que tem recado para quem não acredita no método: “O primeiro princípio do coaching é apagar julgamentos e desenvolver a curiosidade de cada um. O ceticismo é a ausência do conhecimento, então, antes de concluir, abra a cabeça para coisas novas. No fim do treinamento a pessoa se convence.”




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