Contém intolerância

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Daniela Pegoraro

Intolerância à lactose é causada por deficiência da enzima lactase e pode ser desenvolvida em qualquer fase

Uma mesa farta de café da manhã com pão de queijo, iogurte e leite com café pode significar, para alguns, somente uma maneira de começar o dia. Para outros, o cardápio, que é aparentemente comum e inocente, resulta em grandes desconfortos nas horas que se seguirão. Náusea, vômito, dores abdominais, gases e diarreias após ingerir leite e seus derivados são alguns dos sintomas de quem sofre com intolerância à lactose.

A deficiência da enzima lactase é o que faz o corpo ser incapaz de digerir o açúcar encontrado no leite, a lactose. A intolerância pode se dar de três maneiras diferentes: desde o nascimento por conta da genética, devido a lesões e doenças gastrointestinais ou, ainda, a pessoa pode desenvolvê-la conforme o envelhecimento, como explica a alergologista da Faculdade de Medicina do ABC Roberta Criado.

“É normal que o corpo vá parando de produzir a enzima no decorrer da vida, isso porque o leite deixa de ser importante para o organismo.” Ainda segundo a médica, o leite é necessário na infância. “Somos os únicos mamíferos que continuam a beber leite depois de crescer”, acrescenta. De acordo com o nutricionista de Ribeirão Pires Gustavo Luiz, o adulto tem outras formas de encontrar os mesmos nutrientes que existem no leite. “Cálcio, por exemplo, existe em todos os vegetais e carnes”, pontua.

No entanto, hoje o leite está presente na composição de grande parte dos alimentos, desde bolachas e bolos até os mais óbvios, como sorvetes, chocolates e milkshakes. Alguns intolerantes à lactose conseguem comer um pedaço de pizza de mussarela sem sentir nenhuma alteração em seu organismo, enquanto outros podem passar mal com apenas uma fatia de queijo no meio do lanche. Essa variação se dá pelo fato de que existem diferentes níveis de intolerância, que variam de acordo com a quantidade de enzima lactase que ainda é produzida pelo corpo.

Também é preciso levar em consideração que alguns alimentos possuem mais lactose do que outros. Por exemplo, margarina tem bem menos, o que faz com que seja mais fácil de ser digerida. A estudante de Santo André Barbara Krauss, 21, percebeu que se sentia mal quando tomava um copo de leite. Após notificar à sua nutricionista, realizou exames que detectaram intolerância à lactose em baixo nível. “Percebemos que eu só não conseguia tomar leite, os derivados não me davam nenhum problema”, conta.

Para ter certeza da intolerância e do seu grau, o mais comum é que seja realizado o exame de tolerância à lactose. Nele, o paciente é submetido a uma dose concentrada do componente e depois é realizado exame de sangue para verificar a quantidade de glucose na corrente sanguínea. Para quem sofre de intolerância, os níveis de glucoses não serão alterados, isso porque a falta de enzima lactase não consegue quebrar a molécula da lactose em glucose e galactose, como deveria ser feito.

Foi nesse teste que a estudante de São Bernardo Julia Centini, 22, teve a certeza de que sofria da intolerância em alto grau. “Comecei a passar mal todos os dias. Anotei, então, tudo o que comia e percebi que sempre ficava doente depois de ingerir alimentos com leite”, relembra. Depois disso, teve de cortar da sua dieta doces, leite e bolacha. “O café da manhã foi o mais difícil. Queria tomar achocolatado e não dava, nem pão com manteiga”, relata.

No entanto, a enorme variedade de produtos zero lactose ajuda, e muito, para que as mudanças na dieta não sejam tão radicais. Hoje, é possível encontrar nas prateleiras de qualquer supermercado, e com diferença não tão alta de preço, alimentos como leite, manteiga, iogurte e até queijos sem a substância. No ano passado, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) decretou que alimentos à base de leite precisam ser rotulados de acordo com a quantidade de lactose presente. Até 2019, todos os produtos devem indicar se possuem zero lactose, baixo teor ou contêm o componente, o que facilita na hora de saber o que comprar ou não.

“Descobri também que a própria enzima que o corpo não produz, a lactase, é vendida em cápsula”, conta Julia. Ela explica que, depois de tomar a enzima, pode ingerir alimentos lácteos sem que isso lhe cause problemas. A alergologista confirma que a lactase pode ser encontrada separadamente, como um suplemento alimentar, mas “no entanto, é algo que tem de ser tomado apenas eventualmente, quando não tem jeito". Ela explica que o melhor tratamento é mesmo evitar alimentos com o açúcar do leite, isso porque a intolerância não é algo reversível.

O assunto é complexo e ainda gera dúvidas e incertezas. Foi pensando nisso que Jennifer de Melo, 23, começou a criar conteúdo para o YouTube (Jenny de Melo) com o objetivo de esclarecer a intolerância à lactose, com a qual sofre desde 2014. “No primeiro vídeo já esclareço as principais dúvidas, porque era o que todo mundo me perguntava”, conta. Isso foi há dois anos e é um dos vídeos mais vistos sobre o tema, com cerca de 22 mil visualizações. Em seu canal, Jennifer também compartilha sua experiência do convívio com o diagnóstico. “A minha maior dica é: sempre leia os rótulos. Qualquer coisa pode ter lactose, mesmo que você ache que não. Remédios e alimentos embutidos, como presunto e mortadela, também contêm o açúcar”, conta.

Intolerância não é alergia

A alergologista Roberta Criado enfatiza que existem grandes diferenças do alérgico ao leite ao intolerante à lactose. Para começar, quem sofre com a intolerância possui apenas sintomas gastrointestinais que acontecem em níveis diferentes de acordo com a quantidade ingerida. A alergia, no entanto, não é à lactose e, sim, à proteína do leite. Nela, uma gota do líquido é o suficiente para provocar sintomas que são muito mais graves. Um alérgico pode sofrer com dermatites, problemas respiratórios e até mesmo gastrointestinais, mas de forma mais aguda. 

Mitos e verdades

Só tem lactose no leite. MITO

A lactose está presente em derivados como queijos, iogurtes e manteigas. Produtos que possuem os alimentos citados em sua composição também têm a substância, tais como presuntos, bolachas, chocolates, bolos, tortas etc. Atenção: alguns remédios estão na lista.

Dá para desenvolver intolerância sem nunca ter tido nenhum sintoma. VERDADE.

A intolerância pode se dar de diversas maneiras, mas é comum que um indivíduo que antes ingeria leite sem problemas, de repente tenha desconfortos. Isso acontece porque, enquanto envelhecemos, a enzima responsável por quebrar a lactose em glucose e galactose passa a ser produzida menos.

Alimentos sem lactose emagrecem. MITO

Não existe nada que confirme isso. O alimento zero lactose apenas tem seu açúcar já quebrado em glucose e galactose. Inclusive, ingerir produtos deste tipo pode, a médio prazo, gerar grau de intolerância porque o corpo deixa de produzir a enzima lactase com tanta frequência.

Não beber leite faz mal à saúde. MITO

É polêmico, mas segundo o nutricionista Gustavo Luiz, os nutrientes do líquido podem ser encontrados em outros alimentos, como vegetais, carnes, oleaginosas, peixes etc. Por isso, o consumo do leite se torna desnecessário e cortá-lo de sua rotina não faria mal algum. Mas, na dúvida, consulte o seu médico.

 




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