A grande dama

Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar A- A A+

Compartilhe:

Miriam Gimenes

Nathalia Timberg, que construiu sua carreira nos palcos, cinema e televisão, e deles se tornou um dos expoentes, diz que o segredo da vitalidade é manter-se viva, no real sentido da palavra.

Se pudesse resumir sua vida em versos, a atriz Nathalia Timberg não teria dúvidas: escolheria o Soneto X, de Fernando Pessoa (1888-1935). Escrito, segundo registros, no início do século passado e dividido em quatro estrofes, ela destaca, em especial, a primeira trova, que diz 'aconteceu-me do alto do infinito esta vida', ou seja, quis o destino que ela fosse assim. “A mim também, aconteceu do auto do infinito esta vida. E é por isso que sou responsável. Se eu tenho discernimento, se me foi dada a possibilidade, sou responsável por tudo isso. Não faço regras, não sigo regras, não tenho bitolas, me libertei delas muito cedo.” O poema, que conduz, portanto, seus 88 anos de vida, mostra em rimas que ela é protagonista não só em cima dos palcos por onde passa – o que a torna uma das grandes damas do teatro brasileiro – como também de sua vida.

E começou a assumir essa postura logo aos 6 anos, quando fez participação no filme O Grito da Mocidade, em 1937, de Olavo de Barros. “Recebi convite de um diretor amigo dos meus pais (o pai era polonês e a mãe, belga). Depois segui (na profissão) fazendo paralelamente, sempre o teatro com um apelo, principalmente quando estava na universidade. Participei do teatro universitário e, de lá, começou a se definir mais para mim qual seria meu meio de expressão. Acho que todas as manifestações de arte, aquela que mais me via como um meio de expressão maior foi com o teatro.” Embora ela tenha se formado na Escola de Belas Artes, no Rio de Janeiro, não conteve seu ímpeto de se aprofundar nos palcos e fez as malas. Seguiu rumo à Europa.

Por lá, mais precisamente no curso de formação de atores Education par les Jeux Dramatiques, na França, no início da década de 1950, se formou novamente. Desta vez no ofício que seguiria a partir de então. Uma vez de volta ao Brasil, em 1954, se profissionalizou – na Companhia Dramática Nacional e no Teatro Brasileiro de Comédia –­para, só então, estrear na peça Senhora dos Afogados. Dois anos depois, apareceu, pela primeira vez, na TV Tupi, em O Grande Teatro. De lá para cá foram mais de 40 montagens nos palcos e quase o mesmo tanto de trabalhos em televisão. O último foi Beatriz, de O Outro Lado do Paraíso, da Rede Globo, ainda no ar. Ela deve voltar nas próximas semanas em flashbacks.

E é com estes números que você mede seu sucesso? “O sucesso é uma coisa muito falaz. Se você diz sobre o retorno que, de repente, eu encontro no meu trabalho é sim forma de poder medir, eu conseguir tocar as pessoas. Porque o artista, principalmente os que lidam com as artes de comunicação, ele se sente recompensado na medida em que ele conseguiu mexer (com o público). Quando eu mesmo questionava o fato de fazer teatro como um ser social, tive um grande diretor e amigo que me disse: 'Pare com isso. A medida em que você atua sobre a sensibilidade e a inteligência de um povo você faz parte de qualquer panfleto’. É por aí que eu meço. Se eu consigo, de alguma forma, mexer com esses vetores principais eu me sinto recompensada.”

É dessa forma que ela sai do palco toda vez que apresenta a peça Chopin ou O Tormento Ideal, que esteve de passagem no Sesc Santo André e agora está rodando o Estado. Na história, dirigida por José Possi Neto, em que são mostrados recortes de 20 anos da vida do pianista polonês, ela faz diversos personagens, entre eles o próprio músico. Em parceria com a pianista Clara Sverner, Nathalia emociona o público, do início ao fim. “A peça termina praticamente com um recado dele, em que diz: 'A última coisa que se pode chegar é a simplicidade. Depois de ter esgotado todas as dificuldades, depois de ter tocado imanesa quantidade de notas, é a simplicidade que aflora com todo seu charme.... qualquer um que tente alcançá-lo sem esforço não chega a lugar nenhum. Não se pode começar pelo fim. É lindo isso”, conclui.

E o teatro, embora seja tão desprestigiado em diversos aspectos, ainda é uma saída para a mediocridade, em sua opinião. “Ele sofre desse mesmo problema que nós sofremos, principalmente na questão da procura por conhecimento. A cultura do brasileiro está muito sucateada. Isso mexe com o nível de exigência dele, de interesse dele, mas eu sempre digo que o teatro subrevive há milênios. Nem esta crise do brasileiro vai conseguir acabar com ele, haja vista a resposta que este espetáculo (Chopin) está tendo junto ao público. As pessoas saem do teatro totalmente mexidas. É especial, com os textos esplêndidos, que eles nos dão uma visão multifacetada do Chopin.” E cita um amigo do pianista, Robert Schumann, gênio da época, que disse no velório de Chopin que 'a alma da música havia andado pela Terra' e ela concorda. “Não é uma frase, é uma constatação. E acho que nas mãos da Clara (Sverner) (a alma) continua andando. Gosto muito de ouvir piano.”

NAS TELAS

Na tela de televisão Nathalia já assinou grandes papéis e nem todos foram na Rede Globo: também passou pela TV Manchete (O Pantanal), SBT (Éramos Seis) e Record (Marcas da Paixão). Acompanhou, portanto, todo o crescimento do formato desde seu início, ainda na década de 1950. E, por isso, critica a medição da aceitação de um folhetim em razão de sua audiência. “Novela é um estilo, da mesma maneira que tinha a literatura em fascículos. O problema não é exatamente a trama. A gente não pode medir pelo sucesso (pela audiência), porque se nós temos um público que é mal preparado, mal formado, e que talvez ele dê maior audiência a uma coisa que não seja tão extraordinária assim... O que a gente pretende é conseguir, de alguma forma, contribuir para que esse trabalho seja relevante. Então, nem sempre uma coisa que faz sucesso é boa, como nem sempre uma coisa que não faz sucesso é ruim”, acredita. Sucesso, para ela, não está, portanto, diretamente ligado à qualidade.

Para a atriz, há muito ainda o que ser feito para mudar essa realidade. E ela não se exclui disso. “Você vê que certas coisas que atraem o interesse do público são altamente discutíveis. E outras que deveriam interessar passam batidas. Em um País em que as pessoas mal leem, mal conseguem se libertar dessa coisa para ficar apertando botão o dia inteiro (aponta para o celular), para comunicar bobagem, porque fui almoçar não sei aonde, olha meu prato... você pode medir o que uma pessoa que passa seu dia assim está interessada? A pessoa mal fala ou entende a nossa língua. E nós todos, que lidamos com comunicação, somos responsáveis por isso. Quando a gente cede ao que pode agradar nem sempre está fazendo o que deveria fazer. É claro que todo mundo tem de sobreviver, mas a que preço? Assassinar a cabeça de uma população?”, questiona.

Há pelo menos três anos a atriz interpretou Estela, de Babilônia. Para quem não se lembra ela fazia par romântico com Teresa, feita por Fernanda Montenegro. O casal gerou polêmica à época, tanto que houve até boicote ao 'beijo gay' das duas veteranas. E ela acredita que esse deveria ser um tema superado pela sociedade. “Todos os assuntos abordados podem gerar polêmica por vários motivos. Este é um em que me pergunto: por que uma parte da mídia estava ainda fazendo enfoque de escândalo em cima de uma coisa que já deveria estar absorvida de outra forma? Acho, por exemplo, que uma das piores coisas que existem é fazer humor em cima disso, é uma coisa tão reacionária, tão menor, que as pessoas ainda sejam fruto de bolsões de ignorância, temos de contribuir para acabar com a ignorância.” Os artistas, assim como os cidadãos comuns, têm de ajudar a sociedade a progredir, não o contrário.

E em ano de eleições, em que ainda existem candidatos que rechaçam as minorias, ela é taxativa: “Cabe a você não votar nele. Ou esclarecer. É o tal negócio. Você tendo a liberdade de pensamento é uma das coisas pelas quais nós lutamos. Agora, a liberdade de pensamento não quer dizer que você tem de ajudar a manter uma sociedade em um nível baixo de desenvolvimento. É você contribuir para que essas pessoas que pretendem esmagar uma sociedade não encontrem terreno fértil. Agora, não é ensinando português errado, como certos livros que foram oficializados pelo Estado, que você vai contribuir com isso. Não é obrigando nas escolas a passar de ano, a não corrigir, que você vai melhorar isso. Qualquer um de nós que lida com comunicação não pode esquecer o que tem na mão.” A situação do Rio, exemplifica, é o total resultado da aposta na ignorância.

VIDA

Nathalia, que se casou apenas uma vez e optou por não ter filhos – 'que mania que têm as pessoas de fazerem cobranças e regras!', diz, sobre isso –, mantém a sua vida ativa, desde sempre. A idade, para ela, nunca foi empecilho para tirá-la de qualquer projeto. Tanto que tem planos de turnê com essa peça que está em cartaz e outras que ainda estão por vir. Gás e vitalidade não faltam. “Me sinto capaz de fazer o que faço, então, por que não vou fazer? Faço exercício na medida do possível, tenho uma vida de trabalho. O que mais me alimenta é o trabalho. Nós temos uma visão também deteriorada do que seja a idade nos dias de hoje. Nós pensamos na idade como os cânones que vêm de décadas atrás. Uma pessoa de 60 anos antigamente é uma pessoa de 80 hoje. Pela própria mudança de vida, de alimentação, as pessoas ficavam guardadas ao invés de se mexerem, de se manterem ativas. Ou você evolui ou involui. Ninguém fica parado.” E qual o seu sonho hoje? “É ver um mundo como ele poderia ser em paz. Com as pessoas conscientes desse milagre que é uma vida e de respeitá-la”, finaliza. Fica a dica.




Diário do Grande ABC. Copyright © 1991- 2018. Todos os direitos reservados