O médico da mamãe

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Elvis Clóvis

Mamãe tinha hipocondria. Crônica. Uma vez por semana ia ao médico. Eram três exames por mês. A cozinha, em vez de cheirar a bolo ou arroz queimado, tinha odores misturados de Buspirona, Capreomicina, Ceftarolina fosamila e Darifenacina, que ficavam numa caixa no armário junto com o restante dos mantimentos. Todos vencidos.

Antes do acontecimento que relatarei como no depoimento ao delegado Gervásio, voltemos no tempo: mamãe sempre teve no doutor Creontino Medeiros confiança total e se consultava com ele há mais de 45 anos.

 

Um dia me pediu que a levasse na consulta: “Me leva no meu médico?” Questionei se estava bem e ela disse se tratar de rotina.

 

– Dá para ir mais depressa? Dói muito!

 

– Mãe, a senhora não disse que era rotina?

 

– É minha artrite. Sempre dói na Lua Minguante. Rotina, ué.

 

Na sala de espera nove senhorinhas falavam nomes de vários males. De gastrite a infecção vaginal. Mamãe estava no céu. Pegou carona no rosário de sofrimentos alheios, mas mudou de humor quando o assunto culminou no doutor Creontino que, segundo cada uma delas, era seu médico. Mamãe me ordenou: “Me leva embora!”

 

Semanas se passaram sem que mamãe ligasse para se queixar de uma suspeita de coágulo sequer. Nem um hiperadrenocorticismozinho. Corri até sua casa, pensei no pior. Também quis arrombá-la, mas lembrei que tinha a chave. Abri devagar já me preparando para deparar com a velha Dolores sem vida, mas não em decomposição, pois, intoxicada em décadas de química farmacêutica, isso seria improvável.

 

A cena que testemunhei foi mais bizarra: mamãe dava sopa na boca de um septuagenário amarrado à cadeira da mesa da sala.

 

– O que é isso, mãe? Quem é esse senhor?

 

– É o meu médico...

 

– Mãe, a senhora sequestrou o doutor?

 

– Eu não sequestrei! Ele é meu! MEU MÉDICO, disse ela incisiva.

 

Aí chamei a polícia. Lembro até hoje da velha gritando ao entrar no camburão:

 

– Creontino, me receita qualquer coisa para minha lombalgia!!




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