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Marcela Munhoz

Cheia de personalidade e com a cabeça aberta para novas experiências, Carolina Ferraz surfou em cada onda profissional que apareceu; hoje, aos 50, e sem contrato fixo, está mais destemida do que nunca.

História ou Medicina Veterinária. Maria Carolina Álvares Ferraz estava na dúvida de qual das duas profissões seguiria. Mas também fazia e dava aula de balé clássico quando morava em Goiania, sua terra natal. Acabou entrando na vibe de televisão por acaso. Aos 14 anos, quando se mudou para São Paulo com a mãe para morar com os irmãos mais velhos – após o pai ser assassinado –, começou a modelar e fez um teste despretensioso para as telinhas. Foi reprovada. Mas seu jeito e temperamento conquistaram um diretor que apostou desde o início que Carolina Ferraz tinha tudo para ser atriz. Ela não queria. Tanto que começou como apresentadora do Shock e do Programa de Domingo, da extinta Rede Manchete, e só aceitou entrar no elenco da novela Pantanal (1990) porque foi ameaçada de demissão.

Hoje, aos 50, ela admite que o empurrãozinho foi importante para que pudesse abraçar a carreira de atriz, ofício pelo qual se diz totalmente entregue. Tanto que se declara engajada nas causas que dizem respeito à profissão, como quando se cogitou acabar com o registro profissional, o DRT, por exemplo. “(A extinção do DRT) É desvalorização, é como se estabelecesse um descrédito à nossa profissão. Porém, não acho que ter um registro é determinante. Quantas pessoas não aparecem e acabam arrumando trabalho ou vão fazer uma novela e não são artistas? A gente precisa não só regulamentar e entender que não se trata de um hobby, é de fato um ofício, como ter um sindicato atuante, que esteja mais antenado às questões dos artistas na comunidade brasileira.” Segundo ela, está faltando a própria classe se unir mais. Os músicos já se organizaram muito antes de nós e efetivamente a classe artística não se deu conta, ainda mais com todas essas plataformas (na internet) que surgiram, que já funcionam e daqui para frente só vão aumentar, com certeza.”

E realmente dá para notar a paixão que Carolina sente por atuar. Ela recebeu a equipe de reportagem da Dia-a-Dia antes de entrar nos palcos para atuar na comédia romântica Que Tal Nós Dois? – em cartaz em São Paulo, mas que chega à região em junho (3 em São Caetano, 10 em São Bernardo, 17 em Santo André e 24 em Diadema) – ao lado de Otávio Martins (e Isser Korik). Naquela noite de domingo, ela não estava se sentindo bem. “A gente supera. Saimos do espetáculo de alma lavada, o teatro tem disso, é um sacerdócio, algo transcendental. Esteja o ator bem ou mal, é preciso fazer. Se eu não vier, não tem espetáculo. Chego de uma maneira e saio de outra, melhor”, contou.

Ver Carolina Ferraz fazendo humor combina. Ela é leve e muito 'gente como a gente' quando está no palco. “Estava louca para voltar a fazer teatro e poder fazer as pessoas darem risada, se divertir e esquecer das mazelas da vida é muito prazeroso. E atuar ao lado de um grande amigo é melhor ainda”, diz. Otávio Martins, com quem ela está criando uma companhia teatral, concorda: “Seja lá o que estiver acontecendo, a gente se olha e se joga. Vamos às cegas, confiamos um no outro”, revela. Sobre a peça – que conta a história de dois amantes sob a ótica deles –, Carolina acha o texto inteligente sem ser arrogante, com classe sem ser antipático. “As pessoas conseguem estabelecer empatia com os personagens e falam isso depois da peça, quando convidamos a todos para um bate-papo. Está sendo uma delícia estar nele.”

O espetáculo também traz à tona a questão das restrições que ainda existem sobre a mulher ganhar mais que o homem ou ocupar cargo mais importante. “O Brasil é País muito machista em todos os sentidos, mas acho que não 'pega' mais como 'pegava' antes porque hoje em dia todas as mulheres trabalham. O empoderamento feminino só é viável em um País com cultura para poder entender isso”, dispara. Aproveitando o gancho, a atriz diz que admira muito o casal Obama (Barack e Michelle). “Eles significam muito para o momento atual que o mundo está vivendo. Um cara negro, que viveu longe do pai, que se superou e virou o presidente da maior potência econômica mundial. E ela, incrível, absolutamente inspiradora. Graças a Deus existem pessoas assim. E não estou falando só dos famosos, mas de anônimos que fazem a diferença em suas comunidades.”

Diante de um mundo tão caótico, Carolina admite que, sempre que pode, recorre ao seu canto de paz. “Meu refúgio é no isolamento, na minha casa ou em qualquer lugar onde eu possa desplugar.” Quando desliga, protagoniza os papéis de mulher, filha e mãe da Valentina, 23, e Isabel, 2. Ter tido filhas em duas idades tão diferentes trouxe experiências únicas – “as mais transformadores” – na vida dela. “Sou como igual qualquer mãe: levo na escola, vou na reunião de pais, penteio o cabelo, troco roupa. Faço tudo. É o maior barato, uma delícia. Ser mãe realmente mudou a minha vida. A Isabel é uma bênção neste momento, assim como a Valentina foi no momento que veio. Duas experiências maravilhosas.”

Carolina também é cozinheira desde criancinha. Sim, para quem não sabe, ela manda muito bem nos fogões, tanto que essa habilidade e prazer de 'receber' lhe renderam jobs na televisão e na literatura. O Receitas com Carolina, no canal pago GNT, surgiu depois que ela aceitou, após três anos, insistentes convites do canal. Achava que não era chef para ensinar os outros a cozinhar. Fato é que suas receitas – simples, práticas e baratas – fizeram tanto sucesso que ela deve estrear outro programa em outra emissora na mesma linha, além de ter acabado de lançar o segundo livro com menus especiais. “Não achava que escrever livro dava tanto trabalho.”

 

LIVRE, LEVE E SOLTA

Depois de mais de 25 anos de serviços prestados à Rede Globo, e papéis icônicos como Milena, em Por Amor (1997), Rebecca, em Belíssima (2006) e Norma, em Beleza Pura (2008) – que não para de render memes na internet com o bordão “Eu Sou Rica”, fenômeno que ela acha muito engraçado – Carolina Ferraz está, como a mesma fez questão de definir, em um momento de reinvenção, de parar e refletir.

“Tudo tem seus dois lados. É muito confortável ter contrato, salário e segurança. Mas, em contrapartida, é obrigado a fazer coisas que você artisticamente não necessariamente acha interessantes. Entendo, e somos todos maduros para isso, para sabermos que se trata de uma troca. Porém, acredito que em razão disso (tanto tempo na mesma emissora) hoje estou em posição muito aquém da que esperava e gostaria de estar. Porque em todo o período e história na Globo sempre fui a atriz que faz novela. Participei de poucos produtos, como aquelas minisséries mais elaboradas”, conta.

A artista, porém, considera que vive uma fase bem bacana. “Posso me dar ao luxo de selecionar o que acho mais interessante. Estou bem, me sentindo muito confortável na minha pele e com as escolhas que tenho feito. É uma sensação de libertação, estou na expectativa de que muita coisa vai acontecer. E estou disposta a isso. Quando as mudanças vêm, o mais importante é não resistir a elas. É preciso se entregar, se transformar e ir”, sentencia a artista, que gosta de várias áreas – “só não queria dirigir nunca” – como produção, por exemplo. “Acho que tudo isso só vai me trazer coisas boas.”

Para ela, o ator, no fundo, é uma sucessão de papéis que ele tem a competência para fazer. Aliás, seu papel como travesti no filme A Glória e a A Graça (2017) prova que Carolina mergulha de verdade nos personagens. “Foi muito difícil conseguir dinheiro para realizar o projeto, ninguém queria dar. Me diziam: 'Carolina, não faça isso, é um erro na sua carreira, não vai ser bom para você'. Mas insisti e conseguimos. Queria fugir de esteriótipos, a intenção não era levantar bandeiras, mas falar de um ser humano que passa por problemas, que respira e transpira.”

Seguir em frente é um dos lemas de Carolina Ferraz, que se considera pró-ativa. “Não espero pelas coisas”, diz a atriz, que, na simplicidade da vida, se sente plena. “Chega um momento em que se sente satisfeito com o que tem, mesmo que não seja exatamente o que esperava. A grande inteligência é saber viver assim. Sou realizada, mas ainda quero fazer tanta coisa. Vamos seguir o caminho, que não para e a gente tem que andar com ele, não pode ficar parado.”

 




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