Dona da dor

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Miriam Gimenes

Empresária sofreu violência doméstica durante 21 anos e conta sua história de superação em livro; a seu exemplo, inúmeras mulheres que passam pela mesma situação têm de procurar ajuda, antes que seja tarde demais.

Marlene Monteiro saiu de Pernambuco em 1980. Na bagagem, a jovem de 23 anos tratou de carregar apenas as lembranças de uma vida humilde e feliz, além de algumas mudas de roupas. Dois dias após sua chegada em São Paulo, recebeu, por telegrama, a pior notícia de sua vida: o pai morreu de enfarto enquanto andava a cavalo. Além da saudade, teve de lidar com o remorso, já que ele era contra sua partida. “Minha família me culpou pela morte dele e eu carreguei isso durante 15 anos, porque era a filha predileta”, lembra. Logo conseguiu um emprego em Diadema e seguiu com a vida.

Pouco depois conheceu um rapaz, por intermédio de uma amiga, com quem começou a namorar. Passados três meses, ela perdeu o emprego e decidiu voltar para a terra natal. Mas ele, que se mostrava apaixonado, interviu. A convidou para morarem juntos. “Alugamos um cômodo. Dentro da minha simplicidade me senti uma rainha naquele espaço.” Mas o sonho do castelo durou pouco. Nas primeiras semanas juntos, ele já começou a dar sinais de que não era o mesmo que ela conhecera. Chegava em casa procurando rastros de outro(s) homem(ns). E Marléne nem desconfiava de que aquilo era o início de um ciúme doentio.

Tanto que engravidou e teve de casar, de papel assinado, para garantir o convênio. Uma semana depois do enlace começou a tortura. “Ele pegava no meu cabelo e queria saber quantos homens havia tido antes dele.” Ela, gerando uma criança e sem ter para onde ir, relevava. Fazia de tudo para que ele não se aborrecesse. “Só faltava me ajoelhar aos seus pés. Com isso, fui dando espaço para ele, que foi crescendo e eu, diminuindo. Ele tinha total domínio sobre mim e fui criando uma mágoa, me isolando. Nem sabia que era violência doméstica. Quando você está dentro de um ciclo, não se dá conta. Ele me torturava muito psicologicamente, jogava na minha cara que meu pai havia morrido por minha culpa”, lembra.

Marléne teve uma menina e, em seguida, um menino – hoje com 36 e 35 anos, respectivamente. Os dois presenciaram a vida toda a relação tumultuada e, embora não admitam, tiveram sequelas. Pudera. A sucessão de absurdos é imensa. Se Marléne queria ir à missa, só podia se tivesse permissão. Caso aparecesse um número diferente na conta de telefone, ele infernizava para saber de quem era. Tirava peças do carro dela para que não conseguisse dar partida. Ainda que trabalhasse, o dinheiro ia todo para o marido. Se aparecesse que ela havia tirado R$ 20 da conta, tinha de provar com o que havia gastado. Um verdadeiro inferno.

Até que ela resolveu procurar ajuda. Católica, viu o então padre Dalcides Biscalquin na televisão – ele hoje é apresentador da Rede Vida – e buscou um horário para conversar com ele. Quando conseguiu, só fazia chorar. “Ele foi mostrando que eu não merecia essa vida, que nasci para ser feliz. Não vim com a missão de ser torturada.” Marléne o adotou como mentor espiritual, mas como ele deixou de ser padre, teve de buscar outras redes de apoio. Com muita terapia e cursos de autoajuda, viu que aquele era um relacionamento nocivo. “A gente fica com a mente tão doente que acredita que é amor. Só com o acompanhamento e a terapia que fui vendo que não era. Nem o que eu sentia.”

Tomou coragem e, após uma briga derradeira, ele foi embora. A deixou com os filhos, sem nenhum tostão, embora já estivessem com uma vida financeira tranquila, e ainda passou a ameaçá-la. “Fiquei dependendo de cesta básica de igreja e ganhava pão dos vizinhos até conseguir novamente emprego. Ele passava de fim de semana e jogava R$15 pelo portão, como quem joga salsicha para cachorro. Por onde eu andava, me perseguia e xingava de tudo quanto é nome, me humilhava”, lembra. Com medo, foi então que procurou a DDM (Delegacia de Direito da Mulher) de Diadema e fez um boletim de ocorrência. “Foi aí que ele me deixou em paz e eu comecei a respirar”, lembra. Depois de três anos de litigioso, conseguiu se separar, comprar um carro, se arrumar, viajar e, hoje, aos 61 anos, sente-se plena. “Descobri que para ser feliz não preciso de um homem, a felicidade está dentro de mim.”

O ex-marido morreu no ano passado em decorrência de meningite, no dia do aniversário de Marléne. “Quando ele saiu de casa disse que preferia morrer de uma doença infecciosa do que passar o resto da vida comigo. E no fim, foi isso que aconteceu.”

Toda essa história, com os detalhes, é claro, está no livro Depois do Fim, Recomeçar é Preciso (Editora Nelpa, 150 páginas, R$ 40), que Marléne lança dia 9, às 19h, na Livraria Curitiba, no Shopping Praça da Moça, em Diadema. Com prefácio de Biscalquin, o ex-padre, ela o fez com o intuito de que outras mulheres fujam de situações como a sua e não demorem tanto tempo para 'acordar'. “Quero mostrar que da mesma forma que saí do círculo de violência, qualquer uma pode. Tem de buscar ajuda, o mais rápido possível.”

GRAVE PROBLEMA

O estudo Aprofundando o Olhar sobre o Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres, recém-divulgado pelo Observatório da Mulher contra a Violência e pelo Instituto de Pesquisa DataSenado, realizado entre o fim do ano passado e fevereiro deste ano, apontou que apenas uma em cada três vítimas de violência procura a ajuda do Estado. Do total das consultadas, 29% confirmaram ter sofrido algum tipo de violência, enquanto em 2015 este número chegava a apenas 15%. Essa oscilação percentual, segundo o DataSenado, não significa o crescimento dos casos, mas sim a maior conscientização das mulheres de que estão sofrendo agressão.

Este entendimento é de extrema importância a fim de evitar histórias com fins trágicos. Basta fazer pesquisa rápida para constatar que, diariamente, muitas pagam por essas relações com a vida. E a vítima buscar ajuda a tempo evita muito sofrimento. Foi justamente para isso que nasceu o projeto Homem Sim Consciente Também, que desde 2015 está sendo implementado na Delegacia da Defesa da Mulher de Diadema, a mesma que Marléne procurou ajuda.

Segundo a delegada titular, Renata Cruppi, trata-se de forma de ir até a raiz do problema. “Assim que assumi (o cargo) identificamos que muitos casos de violência doméstica são reproduzidos. A vítima comparecia várias vezes pelos mesmos problemas, ameaça, desprezo e ofensa moral. Precisávamos dar um basta de alguma forma. Fazendo alguns estudos percebemos que estes homens foram educados para serem grossos, não mostrar fragilidade, em grande parte dos casos a violência é uma barreira para que não sejam afrontados nas inseguranças. Por isso ele desconta na mulher e nos filhos, que são vulneráveis. Ele precisa se sentir forte, dominador de alguma forma”, analisa. E completa: “Em muitos casos agem com violência porque é a única forma que sabem. Não aprenderam a desenvolver o diálogo. Não dá para cobrar amor de quem nunca teve.”

Uma vez feito o boletim de ocorrência na delegacia, a mulher é convidada a trazer o parceiro a fim de que ele seja atendido por junta de profissionais: psicólogo, advogado, médico, educador físico e até mesmo veterinário. “A violência doméstica também é identificada na forma como são tratados os bichos de estimação. Alguns homens maltratam o animal como maneira de atingir a mulher. Não a agride, mas maltrata um ser que ela tem muita estima e o veterinário ajuda a identificar isso”, explica a delegada.

O foco do trabalho é fazer com que estes homens se conscientizem e não que apenas aprendam as boas maneiras de se comportar em sociedade. E tem surtido efeito: dos 200 que passaram por este programa, apenas um reincidiu na violência. “Quando eles percebem que estão voltando a ficar confusos, procuram o programa para serem orientados de novo. É uma equipe que dá o respaldo para eles mesmos depois dos encontros.” Segundo ela, além da Delegacia da Mulher de Diadema, a de Santo André também promove este programa aqui na região.

TERAPIA ACESSÍVEL

Lançado há pouco tempo no Grande ABC, o Projeto Ísis, idealizado pela psicóloga Aline Ribas e a assistente social Danielle Pallini, visa atender a mulher que sofre este tipo de violência a ter a consciência do que realmente está acontecendo, além de ajudá-la de forma mais acessível. Para tanto, foram feitas reuniões – mais precisamente dez – no Rudge Ramos, em São Bernardo. Durante estes encontros, segundo Aline, foi falado sobre a Lei Maria da Penha (que desde 2006 criou mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher), as reflexões do que é ser mulher na sociedade a fizeram pensar no futuro, na tal zona de conforto, na rede de apoio para quem sofre este tipo de violência, entre outras reflexões.

Entre as questões que elas mais traziam, ressalta a profissional, a dúvida se estavam ou não sendo vítimas. “Em um dos encontros nós lemos um texto sobre violência e pedimos para elas fazerem uma carta para o agressor e depois propusemos a leitura. Foi bem pesado, mas também bem elucidador.” Isso não quer dizer, acrescenta, que as mulheres não têm informação, mas que conseguem pouco respaldo do poder público. “Infelizmente o Estado negligencia a vítima de violência. Ela tem de provar coisas, geralmente é desacreditada pela família, pela Justiça e é muito difícil. Por isso que muitas continuam na situação durante anos”, analisa.

Mas, pelo menos depois dos encontros, todas saíram com a certeza de que o que viviam era abusivo, de que não estavam loucas, não estavam exagerando. “Viram que aquilo fazia mal para elas. Algumas encaminhei para psicoterapia, via que tinha um processo que precisava de algo mais aprofundado. A função do grupo é a conscientização, mas algumas precisam de encaminhamento. Gostei do resultado e por isso quero fazer um outro grupo em julho.” O preço das consultas é mais acessível do que é oferecido no mercado e, a fim de atender maior número de mulheres, estão sendo feitas parcerias com outros profissionais (inclusive de Santo André), para formação de novos grupos. Quem quiser procurar ajuda basta mandar mensagem na página do projeto no Facebook.

PARA AJUDAR

Em São Caetano, toda terça-feira, grupo de mulheres participa, na Avenida Goiás, 300, do curso gratuito de Promotoras Legais Populares. Ele, que foi idealizado pelo Ibap (Instituto Brasileiro de Advocacia Pública), pela União de Mulheres de São Paulo e pelo Movimento do Ministério Público Democrático, é destinado àquelas que trabalham a favor dos segmentos populares no combate diário à discriminação. “É esforço conjunto para capacitar essas mulheres com o objetivo de desenvolver as ideias de Justiça, democracia, dignidade e defesa dos direitos humanos. Trabalhamos muito com a Lei Maria da Penha”, explica a coordenadora Veronica de Paula.

Uma vez formadas, após 26 encontros, elas podem orientar, dar conselho e promover a busca do Direito no dia a dia das mulheres da comunidade. O curso acontece anualmente na região. “Mas convidamos também a quem se interessar pelos assuntos a visitar uma de nossas palestras, que são abertas”, completa Veronica. Mais informações no site www.promotoraslegaispopulares.org.br.

Atenção

Sintomas. A violência doméstica não é apenas física: a psicológica também se enquadra nesta situação.

Quais são os sinais? Desde invalidar o trabalho da mulher, dizer que ela não é capaz, usar palavras depreciativas para falar com ela, impedir que veja os amigos, a família, não deixar ela usar as roupas que quer, toda vez que começa uma briga é a mulher quem tem a culpa; gritos, ameaças; quando ela decide pedir a separação o homem fala que vai se matar.

E como sair disso? No Grande ABC, tem o Centro de Referência de Mulher de cada cidade. Lá existem profissionais especializados, com escuta qualificada, para fazer os encaminhamentos.

 

 

 

Fonte: Aline Ribas, psicóloga.

 

 




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