Muito além do que está no prato

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Daniela Pegoraro

Veganismo não é apenas recusar carne, leite ou derivados; é filosofia de vida em defesa dos animais

A carne exposta no mercado ao cozimento do alimento para o almoço: esse é processo comum para muita gente. É fácil esquecer ou ser indiferente quanto ao fato de que aquele hambúrguer congelado já foi, algum dia, parte de um ser vivo. No entanto, há os que se envolvem tão profundamente pelos direitos de vida dos animais que repensam sua própria vida. O objetivo é reduzir qualquer envolvimento com exploração e até, quem sabe, em utopia compartilhada pelos adeptos da mesma ideologia, extingui-la. Esses indivíduos são os veganos, que não consomem produtos de origem animal não apenas na alimentação, mas também em cosméticos, vestuário e entretenimento, por exemplo. Carnes brancas e vermelhas, laticínios, ovos e mercadorias que realizam testes em animais definitivamente não fazem parte do estilo de vida dessas pessoas.

Empatia e compaixão pelos bichos que não podem se defender são o que movem esta filosofia. De Mauá, Isis Mastromano, 35, era ovolactovegetariana desde os 18. Ou seja, ela não comia nenhum tipo de carne, mas ainda consumia alimentos à base de ovo e leite. Foi há três anos que decidiu adotar o veganismo. “O amor que já sentia pelos animais, que me fez abolir as carnes, estava em descompasso com ainda me alimentar de leite e ovos, pois é uma indústria tão ou mais cruel”. Em grandes produtoras destes segmentos, por exemplo, galinhas vivem confinadas em grades que não comportam sua quantidade, vacas são inseminadas artificialmente para gerar leite e passam praticamente toda sua vida em pé.

Somente no Brasil, de acordo com dados divulgados em 2017 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a indústria agropecuária abate cerca de 193 animais por segundo, incluindo porcos, aves e bois. De Santo André, Natália Florentino, 23, também foi ovolactovegetariana antes de optar pelo veganismo, há cerca de dois anos. “Comecei a entender melhor o funcionamento da indústria alimentícia, exploração animal e o quanto o ser humano o degrada. Para mim, o veganismo fez muito bem no sentido de querer saber de onde vêm as coisas, de não achar que o leite vem da caixinha”, relata.

A mudança, no entanto, não vem da noite para o dia. Apresentadora e atriz, Luisa Mell, 39, voltou seus olhos para o ativismo do direito animal após sua estreia no programa Late Show, da RedeTV, no qual trazia pautas de denúncias, maus-tratos e incentivos de cuidados aos bichinhos. Ela, inclusive, é fundadora do Instituto Luisa Mell, com sede em Ribeirão Pires. “Aos poucos fui descobrindo a realidade dos animais, como eles sofrem em todos os setores e a questão do impacto ambiental. Foi por eles que me tornei vegana, há cinco anos”. Porém, ela explica que a mudança em relação à dieta não foi tão simples. “Deixar de me alimentar com leite e ovo foi difícil. Passei a ser pessoa chata e inconveniente em restaurantes e festas”, conta.

É PRECISO ACOMPANHAMENTO

Retirar laticínios, ovos e carne da rotina nutricional pode fugir da realidade de muitos, gerando questões em relação à saúde. A nutricionista especializada em vegetarianismo Paula Fittipaldi, de São Caetano, explica que não existe nenhum risco para quem restringe produtos de origem animal em sua dieta. “Toda a proteína da carne a gente consegue repor com proteínas vegetais. O cálcio de leites e derivados também pode ser substituído por alimentos naturais, como oleaginosas”. Contudo, a nutricionista acrescenta que o corpo precisa do suplemento de vitamina B12, encontrada unicamente em carnes vermelhas. Porém, em sua experiência, presencia a deficiência dessa vitamina majoritariamente em indivíduos carnívoros. Ela ainda ressalta que é importante sempre o acompanhamento de um especialista para auxiliar nas montagens de cardápios. “O indivíduo que tira a carne do prato se alimenta melhor, porque passa a olhar para os nutrientes. Não é só pelo prazer na boca”, explica. Exemplo disso é a transformação que Isis percebeu em si após adotar o veganismo. “Passei a comer mais verduras e legumes por entender que comida era o que havia na feira e não no mercado empacotado. Passei a me interessar muito pelo significado da alimentação, pelo valor que ela tem, de onde vem e quem planta”, conta.

Mas há especialistas que não concordam totalmente com a dieta vegana, principalmente no período da infância, como explica a nutricionista Ana Paula Pazzini. “O veganismo para o adulto já é delicado, imagine para uma criança que não tem estômago totalmente formado”. A nutricionista acredita que muitos pais pecam por não saberem como introduzir a nutrição à base de vegetais. “As proteínas têm um contexto favorável ao crescimento. Cortando leite e derivados pode causar déficit de cálcio, o que atrapalha no desenvolvimento da estrutura óssea”, relata. No entanto, ela enfatiza que não é exatamente contra o veganismo, mas sim à idade em que os indivíduos são inseridos a esse estilo de vida. “As crianças deveriam se alimentar com tudo e quando estiverem na idade adulta, sem riscos tão grandes de doenças, implementar o veganismo seria mais seguro”.

O QUE UM VEGANO COME?

Nas padarias e lanchonetes tradicionais, encontrar salgado sem carne ou doce sem leite pode ser tarefa complicada, mas isso não significa que a alimentação é limitada. “As pessoas tendem a achar que vegano só come salada, mas não. A variedade de alimentos que a gente consome é incontável”, relata Natália. Sair para comer fora de casa com os amigos também não precisa ser um problema, como explica Isis. “Tenho reparado que até ‘padarias da esquina’ têm se preocupado em colocar alguma opção vegana. Muitas vezes quem se surpreende nos bares sou eu, pois entro sem esperança de que tenham petiscos para mim, mas têm!”

Hoje existem estabelecimentos especializados em opções veganas, provando que sua gastronomia pode ser variada. Exemplo disso são as ribeirão-pirenses Adriellen Laje e Bruna Gregolin, que estão à frente da Lola & Lóli há quatro anos . Atuando apenas por encomenda – sem loja física –, as duas preparam bolos, doces, salgados e pizzas: tudo sem carne, leite ou ovo. “A gente tem muita encomenda de todos os tipos de público, inclusive carnívoros. Comida vegana é, antes de tudo, comida. Queremos mostrar que o veganismo é possível na vida das pessoas e conta com gama enorme de alimentos”, conta Adriellen.

No entanto, há quem não abdique de um pedaço de bife no prato. Isso não significa que não podem, de alguma forma, se importar e apoiar o direito dos animais. “Adoção é uma forma muitíssimo válida de ajudar animais, aos menos os pets. Não comprar e, sim, adotar. Ainda na linha dos animais de estimação, por exemplo, existem inúmeras ONGs que precisam muito de auxílio financeiro para manter os trabalhos”, finaliza Isis.




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