Direito de escolha

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Miriam Gimenes

Dizem que para você ter uma vida dita completa tem de plantar uma árvore, escrever um livro e ter, pelo menos, um filho. Não consegui achar o autor de tal afirmação nem as razões que o levaram a crer nisso. O fato é que não cumprir uma delas, principalmente a de gerar uma pessoa, não faz alguém incompleto – ou mais infeliz – do que o outro que ‘ticou’ os três ítens. Em grande parte das vezes é apenas uma questão de escolha.

É o caso de Elisabeth de Almeida, 38. Ela se diz plena com a decisão de não ter filhos. “Passei pela fase de ‘querer', isso foi há mais de dez anos. Depois, com o passar do tempo, fui percebendo que este não era um sonho meu, mas uma postura cobrada mais pela família, sociedade, amigos etc. Percebi que não tenho o lado maternal aflorado e que não preciso ter um filho para me sentir mais completa, mais feminina ou mais inserida na sociedade.” Beth gosta de ser livre, de decidir seus caminhos sem estar presa a um modelo de vida que restringiria o seu ir e vir. “Acho lindo quem decide maternar, apoio e tudo, mas não é para mim. Sou superbem resolvida com isso.” E o que há de errado? Nada. Se o homem tem a mesma opção, com certeza não é julgado como a mulher.

E isso tem se tornado cada vez mais comum no País. Pesquisa realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2016, mostra que o Brasil marcou queda em -5,1% em nascimentos, em relação ao ano de 2015, sendo a primeira ‘descida’ desde 2010. O empoderamento feminino e a ideia de ‘meu corpo, minhas regras’ estão cada vez mais dando o tom dos rumos da mulher na sociedade.

A psicóloga Salma Cortez atribui também alguns fatores a esta constatação, como aumento da importância da carreira profissional, o crescimento do poder econômico e, consecutivamente, a sensação de maior autonomia e poder de escolhas, além do descolamento da identificação mulher/mãe. “Isso nos leva a pensar que é uma escolha que, mais do que uma pressão de fatores externos, tem um posicionamento interno a partir do qual dizemos para nós mesmas que o fato de sermos mulheres não nos obriga a também sermos mães. Estamos percebendo e tendo acesso a outras formas de nos sentirmos completas e criativas de maneiras que, talvez, nunca tivéssemos pensado antes.”

A especialista diz ainda que mais do que simplesmente não querer ter filhos, é provável que as mulheres estejam, na verdade, buscando questionar se irão perpetuar o modelo que se tem até os dias de hoje. “Caso seja assim, estaremos adotando posição de força e consciência que nos dará resiliência suficiente para não sucumbirmos à pressão de modelos arcaicos do que é ser mulher.” É isso. Uma recente postagem na ‘timeline’ me chamou muita atenção e conversa diretamente com essa ideia. Dizia: “Perguntam se já formou, se já casou, se já tem filhos... Como se a vida fosse uma lista de compras. Ninguém pergunta se você é feliz.” Para isso, minhas amigas, não existe receita, definitivamente.




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