A vida ensina

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Miriam Gimenes

Gabriel Lucca, 5, de Bocaina, Interior de São Paulo, deu o que falar há alguns dias. É que em um lampejo da inocência infantil, escreveu um ‘bilete’ para a mãe, em que se passava pela professora, a Tia Paulinha, e dizia que não haveria aula no dia seguinte porque ‘poderia ser feriado’. É claro que a mãe logo sacou a peripécia, até porque o pequeno não segurou o riso, e, para sua tristeza, disse que iria na aula, sim. O menino confessou que só queria ficar em casa para ver desenho. Quem nunca?

O que me chamou atenção nesta história viralizada na internet foi que assim como muitos deram risada com a ideia do garoto, houve também quem criticasse a mãe. Sim, chegaram a enviar ofensas para ela que, em um segundo post, disse que assim como toda mãe quer que seu filho faça as coisas corretas, ela o repreendeu. “O fato dele querer faltar da aula não o transforma em um marginal, vândalo, perigoso, terrorista. É só uma criança”, disse. Com certeza.

A nós, enquanto pais, cabe ensinar o caminho correto dia a dia. Mas a escolha se irá seguí-lo ou não – e arcar com as consequências – corresponde a cada indivíduo. Digo isso porque lembrei de uma ocasião em que eu, quando tinha três vezes a idade de Gabriel, me candidatei para participar de um programa de televisão pela minha escola. Só que o único requisito era ter 16 anos e eu menti.

Passei a noite sem dormir pensando o que faria se pedissem a minha identidade. No dia seguinte, fui para a escola cedo e tentei ‘alterar’ a data do meu nascimento no documento de uma forma que faziam à época para entrar em baladinhas: mudei o último número do ano e fui tirar uma xerox. A papelaria ficava na rua de trás da minha escola e a dona, que logo se ligou no que eu queria, disse: ‘Nós não fazemos esse tipo de coisa aqui’. Seria melhor que ela tivesse dado um tapa na minha cara.

Cheguei na escola aos prantos e meu amigo que participaria comigo da brincadeira me tranquilizou, dizendo que eles não iriam checar a idade. Passei o dia tensa, com dor de cabeça e com uma vergonha sem tamanho. Por fim participei da brincadeira, ganhei, mas sai com algo além do prêmio: a lição que nunca se deve mentir, como a minha mãe sempre me ensinou e tenho certeza que a do Gabriel também. Se a gente não aprende com amor, com certeza o fará com a dor. A vida se encarrega.

 




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