Coração de menino

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Vinícius Castelli

Gabriel Sater, que se apresenta este mês em Santo André, carrega em sua arte – seja nas telas de cinema, na televisão ou nos palcos – a paz de quem prioriza o que é essencial na vida

O sotaque não nega as raízes do Interior, tampouco o jeito gentil e calmo de falar. Gabriel Sater, em poucos minutos de conversa, lembra cheiro de mato, de café, de roça. Mas, principalmente, de música. Até porque nasceu em casa permeada de notas musicais. Quando vivia em Mato Grosso do Sul, sempre participava das festas de seu avô Fuad Sater. Duravam três dias e tinham muita canção. Isso lá em Campo Grande. É uma época de sua vida da qual sente muita falta. “Meu avô era muito expansivo e muito carismático”, diz ele, com tom saudosista. Mas as lembranças mais remotas, quando se fala de música com Gabriel, são de seu pai, Almir Sater. “São dos shows dele. Eu assistia desde criança. Algumas músicas me arrepiavam de tão boa energia”, conta.

O artista, aliás, tem agenda no Grande ABC, onde será possível presenciar essa sua essência interiorana e o talento, que vieram no DNA. Com seu violão, se apresenta no palco do Teatro Municipal de Santo André (Praça 4º Centenário), no dia 27, a partir das 20h. O compositor aproveitará  para estrear a turnê batizada Quando For a Hora, que divulga seu novo disco, Ao Vivo no MiniDocs, quarto da discografia.

“É o início de um ciclo. Lanço o disco, que foi gravado em duas sessões, em estúdio, em Lambari, Interior do Estado, e ao vivo, no Teatro Vivo, em São Paulo. São sete músicas do programa Mini Docs e três singles”, explica o artista. “Adoro tocar no Grande ABC. Será o primeiro show dessa nova turnê. Meu público na região é muito receptivo. Tem de crianças a idosos”, complementa.

Pelos fones de ouvido de Gabriel não passa só música caipira, no entanto. Ele gosta de rock e blues. Ouve também música clássica, jazz, flamenco, folclóricos de fronteira. “Cresci em Campo Grande, com esses conjuntos, do Paraguai, Argentina, Bolívia. Essa essência é o diferencial do meu trabalho”. Além disso, conviveu desde cedo com grandes nomes da música, como Paulo Simões, Renato Teixeira, Geraldo Espíndola. E também meus tios, Rodrigo e Gisele Sater.

E com tantas referências nem gosta de rotular o trabalho que cria. “Tem MPB, folk, pitadas de jazz. É um mix que resulta na minha música. Meu pai fala que essa é minha marca”, conta. “A música da família Sater é sem fronteiras”, ressalta.

E quando se fala em seu pai, Gabriel demonstra amor puro e incondicional. “Eu e meu pai somos próximos. Temos intimidade. Faz tempo que a gente está para gravar um videoclipe, mas ele me enrola”, conta, em tom de brincadeira. Gabriel diz que é uma relação amorosa, saudável, em que um tem liberdade de tecer críticas ao outro. “Posso contar com a opinião sincera dele”, frisa.

O músico conta que muita gente acha que Almir é seu produtor, mas não é. “Minha carreira é 100% independente. Ele é meu ídolo e pai. Cobro o melhor dele e fico feliz em vê-lo produzindo. Ele fez agora dois discos maravilhosos com o Renato Teixeira. Dois álbuns que vão compor o acervo da música brasileira”, conta, orgulhoso.

Compositor, cantor, violonista e violeiro de mão cheia, Gabriel, que começou a carreira profissional aos 19 anos, colhe hoje os frutos de seu talento, sim, mas também fruto de muita dedicação. Ele acaba de estrear nos cinemas com o filme Coração de Cowboy, em cartaz nas telonas. A obra, com direção assinada por Gui Pereira, presta homenagem à música caipira e conta a história fictícia de Lucca (Gabriel), um popstar da cena sertaneja. Após passar por problemas na carreira, retorna à sua cidade natal para buscar inspiração e rever seu pai (Jackson Antunes).

“Fazer esse filme foi fantástico. É um novo Gabriel a partir dessa experiência. Estou mais consolidado. Esse trabalho é de um diretor com muita bagagem e que faz seu primeiro longa. É minha primeira vez no cinema e quero fazer mais. Amei a experiência. Me encontrei”, diz ele, que contracena com nomes como Thayla Ayala, Thaís Pacholek e Françoise Forton. A obra, aliás, segundo Gabriel, conta com três de suas composições: Quando For a Hora, Meu Lugar e Lembranças Demais. O filme também já faturou premiações como o de melhor filme e, para Gabriel, como melhor ator, no Scruffy City Film and Music Festival em Knoxville, no Tennessee, Estados Unidos.

Na telinha

Gabriel também passou pela TV. Quem viu a novela Pedacinho de Chão, da Globo em 2014, deve se lembrar dele como o músico sedutor Viramundo. “Foi naquele papel que aprendi a tocar viola”, revela. “Depois fui protagonizar o musical Nuvem de Lágrimas. Foi muito especial, com um grande elenco”. A estreia da obra, levemente inspirada no romance Orgulho e Preconceito, da britânica Jane Austin, foi em novembro de 2015. Gabriel encarnou o papel de Darcy e dividiu o palco com a cantora e compositora Lucy Alves.

Mas é em casa que divide há 12 anos com  Paula Cunha, que Gabriel se sente pleno. Ele não poupa elogios à parceira e até se emociona ao falar dela. “Somos muito amigos e companheiros. Ela é artista plástica. Está sempre me motivando”, diz. Eles vivem com três cachorros: Tuti, Caco e Cicí. Filhos eles ainda não têm, mas Gabriel se anima ao pensar em dar um netinho ou netinha para Almir Sater.

Ele deixou o Mato Grosso do Sul há tempos, mas jamais deixou a natureza. Está em São Paulo há alguns anos. “Moro na Serra da Cantareira desde 2008. Não fico longe do mato. Se estiver distante disso não consigo compor bem, não fico feliz. O pezinho na terra é o que me renova”, afirma animado. “Sou 100% focado na minha carreira, então preciso disso para me renovar. Se não tiver essa válvula de escape fica complicado”, explica.

Depois de toda a correria para divulgar o filme Coração de Cowboy, com viagens e maratonas de entrevistas, Gabriel quer agora curtir o lançamento de seu disco. Além disso, já foca em outros dois projetos. “Sou produtor musical do Lual no Pantanal, um DVD musical idealizado por Vicente Gomes. Terá vários artistas famosos, mas ainda é segredo”, diz. O trabalho já está na pré-produção. Além disso, ele trabalha para conseguir atuar em outro filme. As negociações já começaram. “Quero viver o personagem que é um ídolo no esporte brasileiro e está ligado à música sertaneja. Mas o filme não é de música”, revela. “Este é um momento muito especial da minha vida”, finaliza.




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