SOMOSTODOSMAJU

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Miriam Gimenes

 #SOMOSTODOSMAJU

 

A jornalista Maria Julia Coutinho não só  mudou o jeito de noticiar 

a previsão  meteorológica como também fez  história à frente de

um dos jornais mais importantes da televisão brasileira

 

 
A hashtag que dá título a esta reportagem alcançou os trend toppics há quatro anos. Ela foi criada depois que a jornalista Maria Julia Coutinho, chamada carinhosamente de Maju por amigos e telespectadores, foi alvo de comentários racistas na página do Facebook do Jornal Nacional, da Rede Globo, para o qual ela havia entrado há pouco para apresentar o tempo. Imediatamente os colegas de emissora,  entre eles William Bonner, editor-chefe do telejornal, e a apresentadora Renata Vasconcellos, além de artistas,   lançaram a campanha para defendê-la desses ataques. 
Maju não se abateu. Em uma postagem, reproduziu um dos comentários contrários a ela  e apenas mandou um  ‘beijinho no ombro’. Isso não quer dizer que lidar com este tipo de preconceito seja fácil para a mulher, que nasceu em São Paulo, tem 40 anos e já passou um tempo no Grande ABC como professora da Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Professora Neusa Macellaro Callado Moraes, em São Bernardo. “Minha família sempre me orientou sobre a situação da comunidade negra no Brasil e no mundo. Eu e meu irmão aprendemos a nos preparar, reivindicar espaços e nos defender. Também medito e faço terapia há 20 anos. Isso me ajuda a manter a calma e a sabedoria nos momentos mais difíceis.”
A sua resposta veio com o trabalho. Tanto que, em fevereiro deste ano, voltou a ficar nos trend toppics novamente, mas por um bom motivo: foi a primeira mulher negra a apresentar o Jornal Nacional. “(Foi) Emocionante. Jamais esperei viver o que vivi com o anúncio da minha ida à bancada”, comemora. Ao fim do jornal, enquanto subiam os créditos, Maju desceu ao estúdio com Rodrigo Bocardi, com quem dividiu a apresentação no dia e, ao chegar na redação, levantou os braços. Foi aplaudida pelos colegas de trabalho. 
Maju está na Globo desde 2007. Antes passou pelo Jornal da Cultura, ao lado de Heródoto Barbeiro, passou pelo Cultura Meio-Dia, e depois foi para a Vênus Platinada, onde trabalhou durante cinco anos como repórter. O seu início na previsão do tempo foi em 2013, no Globo Rural. Teve passagens também pelo Bom Dia Brasil, Hora Um, Bom Dia São Paulo e Jornal Hoje, até chegar ao Nacional. Foi nele que ganhou o público, até com o jeito despojado de falar sobre a previsão: o termo 'chuvica', designado para falar sobre uma chuva fina, caiu no gosto até do Bonner. Ela, que também participa do Papo de Almoço, da Rádio Globo, estudou tanto sobre o assunto que lançou o livro Entrando no Clima (Editora Planeta), em que traduz seu ofício para o público. Confira, a seguir, trechos da entrevista que ela concedeu à Dia-a-Dia Revista: 
Como surgiu o seu interesse no jornalismo?
Desde pequena brincava de escrever jornais, revistinhas, apresentar trabalhos de escola em forma de telejornal. Quando fiz um teste vocacional, composto de uma série de dinâmicas de grupo, tive a certeza que o jornalismo seria minha praia. Na faculdade (Casper Líbero), ao fazer uma reportagem para o laboratório de telejornalismo, também bateu a certeza de que estava no caminho certo.
 
Para ser repórter do tempo é necessário muito preparo, até para entender o linguajar dos meteorologistas. Quanto tempo você levou para se sentir apta para entrar ao vivo?
Depois de um ano atuando como repórter do tempo dos telejornais da manhã, senti-me mais confortável na função. Temos uma superequipe de meteorologistas que nos apoia e cultivo também várias fontes (cientistas, ambientalistas, especialistas em gestão de água, de energia solar e eólica), que me abastecem com assuntos relevantes para a previsão do tempo.
 
A carreira de jornalista televisivo é gradativa da reportagem à apresentação. Você vislumbrou apresentar um jornal diário? A primeira vez que isso aconteceu como se sentiu?
A bancada de um telejornal era um dos sonhos. Senti uma satisfação tranquila quando realizei este sonho.
 
 
Enquanto repórter, qual foi a reportagem mais marcante que fez?
Sobre um homem que morreu na obra de ampliação de um shopping de São Paulo. A partir da morte dele, descobrimos que os funcionários da obra viviam em situação degradante em um alojamento precário. A Delegacia do Trabalho entrou na história. Muitos dos funcionários conseguiram voltar para Sergipe, de onde vinha a maioria dos trabalhadores daquela obra.
 
Lembra de ter feito alguma aqui no Grande ABC?
Fiz várias: enchentes em São Bernardo, cobertura de greves, eventos no Parque Sabina, reportagem na rua de móveis em São Bernardo (Jurubatuba), e na rota gastronômica da cidade, visita à Cidade da Criança, entrada ao vivo na Anchieta para falar do trânsito.
 
E o que achou da repercussão que teve a sua apresentação do ‘Jornal Nacional’?
(Foi) Emocionante. Jamais esperei viver o que vivi com o anúncio da minha ida à bancada.
 
Vi no ‘Altas Horas’ você falando sobre o preconceito que sentiu por ser negra. Como lidou com isso ao longo de sua vida?
Minha família sempre me orientou sobre a situação da comunidade negra no Brasil e no mundo. Eu e meu irmão aprendemos a nos preparar, reivindicar espaços e nos defender. Também medito e faço terapia há 20 anos. Isso me ajuda a manter a calma e a sabedoria nos momentos mais difíceis.
 
Você também foi professora em São Bernardo. Quando foi e em que escola? Dava aula para crianças de que idade? Chegou a morar na região?
Trabalhei na Emef Professora Neusa Macellaro Callado Moraes, no bairro Assunção, em 1999, dando aula para alunos da 4ª série. Eu morava em São Paulo, cursava jornalismo na Cásper Líbero pela manhã, trabalhava em São Bernardo à tarde e estudava pedagogia na USP à noite. Num dia chuvoso, despedacei meu carro na Rodovia Anchieta e percebi que deveria parar: pedi exoneração na Prefeitura e abandonei a pedagogia.
 
Quem é a Maria Julia que o público não conhece?
Uma mulher que curte ler, viajar, ouvir podcasts, curtir minha família, jantar com poucos e bons amigos, meditar, caminhar no parque, me alongar, levar o sapato ao sapateiro e sair com minha cachorra para passear.
 
 
Quais são seus sonhos?
Levar uma vida saudável, equilibrada e interessante (com alegrias e tristezas) e continuar trabalhando com o que amo, curtindo meus amigos e familiares. (Ela é casada há nove anos com o  publicitário Agostinho Paulo Moura).
 
Quais são os seus segredos de beleza?
Dormir bem, comer pouco, meditar, me exercitar e me cercar de pessoas positivas.



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