NATUREZA PEDE SOCORRO

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 ESPECIAL

Richard Molina (Especial para o Diário) Vinícius Castelli

NATUREZA PEDE SOCORRO
 
Últimas manifestações do 
governo federal acerca do 
meio ambiente chamam atenção de ambientalistas dos impactos que 
podem causar em pouco tempo
 
 
Ele está ameaçado há tempos. Segue por um fio. É uma pancada atrás da outra. E ultimamente são várias as demandas vindas do governo federal que colocam em risco algo que há tempos vem sendo, pouco a pouco, devastado: o meio ambiente brasileiro. Entre os bloqueios feitos pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), um deles afeta diretamente a área ambiental. Deveriam ser usados R$ 11,8 milhões para a política nacional sobre mudança do clima, mas foram liberados apenas R$ 500 mil, ou seja, 96% do valor total foi cortado. O anúncio do bloqueio da verba foi feito em maio. E as notícias não param. A Estação Ecológica de Tamoios, criada em 1990 em Angra dos Reis (Rio de Janeiro), abriga espécies animais que correm risco de extinção, servindo como laboratório para mais de 100 pesquisas ao longo da última década. O presidente, no início do ano, disse ter vontade de transformar o espaço em uma ’Cancún brasileira’, e que, com o turismo, pode render bilhões de reais. Hoje são proibidos visita, mergulho e pesca no local, por exemplo.
Como se não bastasse, a Floresta Amazônica segue agonizando. O Imazon (Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia) divulgou os primeiros dados de 2019 de seu sistema de alerta de desmatamento, e o resultado é para lá de preocupante. Ele indica que a devastação na Amazônia Legal – área que abrange nove Estados brasileiros – aumentou 54% em janeiro, se comparado com o mesmo mês do ano passado. O Estado do Pará foi o que mais desmatou, com 37% do total, seguido de Mato Grosso (32%), Roraima (16%), Rondônia (8%), Amazonas (6%) e Acre (1%). A maior parte aconteceu em áreas particulares. Também foram 5% em unidades de conservação e 7% em terras indígenas.
Entre agosto de 2017 e julho de 2018 foram destruídos 7.900 quilômetros quadrados de florestas na Amazônia, aumento de 14% em relação à última medição. Segundo Luiza Lima, porta-voz do Greenpeace Brasil – organização internacional sem fins lucrativos –,  é o maior desmatamento dos últimos dez anos. “E esta situação pode piorar ainda mais. (Jair) Bolsonaro, desde sua campanha presidencial, faz discursos que incentivam o crime ambiental e passam a sensação de impunidade. Constantemente, vemos notícias de perseguições a fiscais ambientais e de enfraquecimento da legislação por parte do governo. Não há nenhum novo plano de combate ao desmatamento”, afirma.
 
 
Ela explica à Dia-a-Dia Revista que as florestas são um importante mecanismo na regulação do clima. Boa parte das chuvas que alimentam as represas nas grandes cidades e irrigam as plantações no Brasil, e até mesmo na América do Sul, depende da existência de florestas como a Amazônica. “A destruição compromete este equilíbrio. O desmatamento também causa reflexos no clima global.”
Sobre o bloqueio do governo federal de 96% do valor que deveria ser repassado ao meio ambiente, Luiza mostra forte preocupação. Ela explica que, entre as ações previstas não estavam apenas de mitigação, como de combate ao desmatamento, mas também de adaptação às mudanças climáticas. “Como obras de infra-estrutura para recuperação de áreas de encosta afetadas pela chuva ou por aumento do nível do mar”, diz. A porta-voz do Greenpeace Brasil acredita que isso faz parte de uma agenda de desmonte da área ambiental dentro do governo federal. “Logo após ter ganho as eleições, (Jair) Bolsonaro queria até mesmo acabar com o Ministério do Meio Ambiente, o que dá o tom da política do novo governo para a área”, opina.
Marta Marcondes, ambientalista, professora da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) e coordenadora do projeto IPH (Índice de Poluentes Hídricos) elege os principais problemas que essa desenfreada onda de destruição do meio ambiente pode acarretar. “Primeiro tem a questão biológica. A perda da biodiversidade devido ao avanço do desmatamento sobre os biomas fósseis. A retirada da mata também acarreta na perda de nascentes e no comprometimento da recarga de mananciais”, explica. Logo em seguida, ela aponta o não cumprimento da legislação do Código Florestal. Segundo ela, falta fiscalização efetiva. “Tem satélite, tem método de monitoramento eficiente, o que falta é fazer cumprir a lei.”
 
 
Para a profissional da região, a postura controversa do novo governo com o meio ambiente é completamente repreensível. “Quem desmata aproveita o momento para retirar madeira em abundância. São milhões de metros cúbicos perdidos.” Outro exemplo desse descaso foi o vice-presidente Hamilton Mourão que, recentemente, afirmou não acreditar que o aquecimento global é causado por ação humana. “É tão surreal que daria um quadro do Porta dos Fundos”, disse, em referência ao programa de esquetes cômicas do YouTube. “Houve uma perda da seriedade, uma falta de consideração pela pesquisa científica. A mudança climática existe e é observável. A gente vê doenças causadas por insetos invadindo áreas em que antes não estavam presentes, como a leishmaniose em Santos e Cubatão”, diz.
Outro assunto que está de volta à pauta é a possível liberação da caça de animais silvestres no País, algo que está proibido aqui desde 1967. O projeto de lei que pode permitir a ação é de 2016, e foi encabeçado pelo ex-deputado federal Valdir Colatto (MDB), que em janeiro foi anunciado como novo chefe do Serviço Florestal do Brasil, vinculado à pasta da Agricultura desde o começo do ano. O projeto aguarda votação na Câmara. Segundo Luiza, estima-se que mais de 40 milhões de animais por ano são arrancados das florestas brasileiras. “O Brasil tem mais de 13 milhões de desempregados e apresenta uma profunda desigualdade social. Nossos líderes têm problemas suficientes para lidar. Liberar o assassinato de animais por esporte não é o que precisamos”, disse ela, ao que Marta concorda: “Não deve existir nem como esporte. Se houver desequilíbrio, existem estratégias para animais que causam problemas”.
Entre tantas coisas negativas nos últimos meses, quando o assunto é a situação da natureza brasileira, é claro que o desmatamento é sempre uma preocupação muito grande, segundo, Luiza. Mas a ativista não deixa de citar a contaminação por agrotóxicos no solo e nos rios brasileiros, com reflexos na saúde pública e problemas em atividades como a mineração, que podem gerar desastres como os de Minas Gerais, em Mariana, com rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em novembro de 2015, e em Brumadinho, quando se rompeu da mineradora Vale, em janeiro. “São problemas sérios que não estão recebendo a devida atenção pelas autoridades brasileiras. Pelo contrário. Estamos vendo um aumento desenfreado no desmatamento, a liberação em ritmo mortal de agrotóxicos, um absoluto clima de incerteza com relação à segurança de barragens. Parece que o governo e autoridades não conseguem lidar com um assunto tão grave e que põe em risco a vida de milhares de brasileiros, com o agravante de termos, pela primeira vez na história, um presidente que assumidamente se coloca contrário ao meio ambiente”, afirma Luiza.
 
Propostas de caminhos a serem seguidos não faltam. A professora Marta apresenta alguns deles. “Temos que fomentar empresas novas, com propostas em consonância com as necessidades do meio ambiente. Nos casos de punição, antes dela, trabalhar processos educativos, para que essas discussões não virem briga por briga. Fazer essa conversa entre as grandes indústrias e os produtores rurais, convencê-los através de publicidade e propaganda eficientes de que preservar vai trazer benefícios. Temos tecnologias para tratar todo o esgoto, e a cada R$ 1 gasto em saneamento se economizam quatro em saúde. Não flexibilizar a legislação. E cobrar da Samarco e da Vale pelas grandes áreas destruídas por tecnologias obsoletas. Temos que ver com outros olhos”, encerra. 
 



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