Deserto da alma

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Miriam Gimenes

A solidão, sentimento de falta de pertencimento ao mundo, pode levar ao vazio; aprenda a combatê-la

O Reino Unido criou, no ano passado, o chamado Ministério da Solidão. A iniciativa se deu porque uma comissão britânica constatou que quase 9 milhões de pessoas no país se sentiam sozinhas. A situação foi definida pela primeira-ministra inglesa à época, Theresa May, como a “triste realidade moderna”, que pode acarretar isolamento social, além de outros problemas psicológicos, como a depressão, por exemplo. “Quero enfrentar esse desafio pela nossa sociedade e para que todos nós possamos agir para combater a solidão enfrentada pelos mais velhos, pelos cuidadores, por aqueles que perderam seus entes amados – pessoas que não têm ninguém para conversar ou compartilhar seus pensamentos e experiências”, disse a ex-premiê, que renunciou em maio deste ano e foi substituída por Boris Johnson. 

A iniciativa chamou a atenção  do escritor Celso Grecco, autor do livro A Decisão de Que o Mundo Precisa (Editora Gente), que está liderando uma pesquisa inédita no Brasil sobre a epidemia da solidão. “Na verdade, o que veio primeiro foi o desejo de escrever o livro, cujo ponto de partida foi responder: por que estamos nos sentindo tão impotentes enquanto cidadãos, em relação a violência, pobreza, entre outros problemas? Essas coisas nos deixam impotentes em relação a elas. Queria dizer:  ‘Você não precisa ser rico, não precisa ser super-herói para abraçar uma causa’. Tanto que o livro aponta sete caminhos para sair da indiferença e deixar seu legado no mundo”, explica Grecco.

A primeira informação importante que encontrou foi uma pesquisa feita no Fórum Mundial de Davos, com 2.500 líderes empresariais e presidentes, que apontaram que a humanidade está ficando isolada.  “Estamos deixando de dar respostas coletivas a questões como refugiados, mudanças climáticas e outras  coisas que  afetam o País. Foi uma coisa meio que ‘cada um cuide do seu quintal’, e isso me chamou atenção”, ressalta o autor. Em seguida, tomou conhecimento do já referido ministério, que entre outras coisas tem o objetivo de tratar a população e, consecutivamente, reduzir os gastos públicos, inclusive com os hospitais, já que a solidão traz consigo doenças, principalmente psicológicas. 

Grecco então se deu conta de que no Brasil não havia esse tipo de mapeamento – o que se sabe é que cerca de  700 milhões de pessoas no mundo apresentem problemas de ordem mental, como  a depressão, provocados pelos novos contextos sociais e tecnológicos, que levam a situações de isolamento social.

“Fizemos uma pesquisa em caráter qualitativo para tentar entender o que é depressão e a solidão. Uma coisa alimenta a outra, mas elas têm dinâmicas distintas. A partir desse entendimento estamos realizando pesquisa quantitativa, com 2.500 entrevistas em caráter nacional, para constatar se realmente o brasileiro é solitário”, explica o autor, que adianta que o estudo está em fase final de apuração e está sendo executado pelo Instituto Opinião, apoiado por Mari Zampol (diretora da pesquisa), Nicolla Raggio (sociólogo) e Rosa Noronha (da área da saúde). 

O que ele entende por solidão, explica,  não é o fato de pessoa ficar quieta no canto, lendo livros. “A vida dessas pessoas, geralmente, se desenrola na ida e volta do trabalho e, embora interajam com as pessoas, se sentem isoladas, não sentem pertencer a lugar nenhum.” Para analisar os dados e traçar um diagnóstico, a pesquisa conta com o trabalho de  psiquiatras, psicólogos, médicos na área da neurologia e antropólogos.

RECURSOs

   A saída encontrada na Inglaterra com o ministério, explica Grecco, devolveu qualidade de vida para quem se viu atendido. “Eles escolheram um hospital e criaram um programa chamado ‘conectores comunitários’, que passaram a fazer visitas, promover atividades e fazer essas pessoas se conectarem. A ideia diminuiu tanto o número de internações que foi economizada uma libra a cada seis libras gastas com as doenças”, explica. Grecco está se programando para ir à Inglaterra, nos próximos meses, para visitar o hospital e ver, com mais detalhes, de que maneira esse programa é implementado lá. “Quem sabe não possa ser feito o mesmo no Brasil?”

OUTRO OLHAR

   A monja Gen Mudita, que é professora de meditação, acredita que a ideia de sentir-se só é questão de escolha de cada indivíduo. “Essa solidão dolorida é estabelecida pela própria pessoa. Na verdade, quando alguém diz que é sozinho, precisa ver se ele não se faz sozinho. Quando se passa algo que a gente não gosta, tendemos a achar e apontar um culpado, mas nunca olhar para dentro de nós e ver por que daquilo. É a lei de causa e efeito e a busca para essa resposta é interior. Só nós, através de desenvolvimento da própria mente, vamos conseguir nos libertar disso”, analisa. A meditação pode ser uma saída para esta análise profunda. 

   Para ela, existem duas definições para essa questão: a solitude, que é estar só e ficar bem, e a solidão de fato, que é quando sente-se a necessidade de algo que não tem. “Daí voltamos ao ensinamento da lei do carma: a consequência dos nossos atos, as causas que a gente criou para aquela situação. A expectativa que a gente tem em relação a outras coisas, tudo isso está em dependência da nossa expectativa e desejo que não foi concretizado. Se conseguirmos compreender que esse desejo é infundado, talvez possa reverter facilmente a situação.” A ideia de que podemos viver tranquilamente sozinhos, para ela, pode trazer o sentimento de deserto na alma. “A gente tem de se entender como uma célula, no vasto corpo da vida. Somos diferentes, cada um de nós com seu jeito, mas todos interconectados. O ar que a gente respira aqui é o mesmo da China, o mar é o mesmo, ele só tem o nome geográfico. Tudo o que fazemos interfere no outro e tudo que o outro faz interfere em nós.” Tem de se admitir a necessidade do outro e, em casos mais graves, não se intimidar em pedir ajuda. 

EM DADOS

   No ano passado,  pesquisa realizada pela BBC Loneliness Experiment, que contou com 55 mil participantes em todo mundo, apontou algumas descobertas com os dados coletados. A primeira delas é que os jovens se sentem mais sozinhos que os mais velhos (níveis de solidão mais altos foram registrados, na verdade, entre jovens de 16 a 24 anos – 40% declararam que com frequência ou muita frequência se sentem sozinhos. Trata-se de uma idade em que estão aprendendo a ser adultos, se separam dos amigos com os quais cresceram para arcarem com as responsabilidades (estudos e trabalho) e não estão acostumados a se sentirem sozinhos, já que sempre tiveram a retaguarda familiar até então.

   Constatou-se também que cerca de 40% das pessoas acharam positiva a solidão. Por sobreviverem por meio da cooperação, aqueles que se sentirem excluídos de um grupo, podem ser induzidos a se conectar com outros indivíduos e, assim, encontram novos amigos ou reativam antigos relacionamentos.

   Outro dado é que o inverno não é mais solitário que outras estações do ano. Questionados  em que época do ano e hora do dia se sentiam mais sozinhas,  mais de dois terços dos entrevistados responderam que a estação mais fria não era mais solitária que qualquer outra do ano. Algumas apontaram o verão, já que é o mês de férias e muitos não conseguem viajar e acabam ficando sozinhos. 

   E, por fim, quem se sente sozinho com frequência costuma ter mais empatia. O sentimento foi medido de duas maneiras: referente à dor física do outro ou em situações de bullying, se  o outro não foi convidado para uma festa ou foi abandonado pelo parceiro. Por sentirem na pele o que é ficar de escanteio, a empatia pela dor social das pessoas que declararam sozinhas com frequência foi muito maior.




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