Defensor dos inocentes

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Marcela Munhoz

Delegado Bruno Lima trabalha todos os dias salvando a vida de animais vítimas de maus-tratos
 
 
Além das brincadeiras comuns de criança, os irmãos Lima, do Jardim Peri, Zona Norte de São Paulo, sempre se dedicaram a defender os animais. Inspirados pelos pais Rosana e Cassio, que resgatavam e alimentavam bichos de rua, Bruno, 33, e Murillo, 30, até arranjavam briga se necessário. “Não permitíamos nenhum tipo de maldade. Discutíamos com crianças da vizinhança por esse motivo”, lembra o mais velho, que se tornou delegado. Bruno ficou conhecido por realizar salvamentos após denúncias de maus-tratos. O mais novo é veterinário e ajuda nos resgates. “Realizamos muitos trabalhos juntos.”
 
Formado em direito após passar por problema sério de visão, o delegado tem trabalho intenso. Só pelas redes sociais recebe cerca de 5.000 denúncias por mês do Brasil todo. Bruno – que ficou mais conhecido por ter atuado no caso do Manchinha, cão morto no Carrefour de Osasco em 2018 – tem 1,1 milhão de seguidores no Instagram e 800 mil curtidas no Facebook. “A internet está sendo peça fundamental na conscientização das pessoas, seja para denunciar ou compreender o que se enquadra em situação de maus-tratos.” Ele também já resolveu casos de tráfico de animais.
 
Se já não bastasse estar à frente na Polícia Civil há quase sete anos – com experiência no 13º DP da Casa Verde –, o delegado também se candidatou a deputado estadual pelo PSL e venceu a última eleição com mais de 100 mil votos. Tudo para  tornar mais rígidas a legislação em relação à violência animal.  “Meu desejo é que o infrator seja punido com leis bem mais rigorosas”, conta.
 
 
Quando você decidiu ser delegado?
Vim de uma família simples, cresci vendo crimes e injustiças. Minha motivação sempre foi  ajudar, acreditava que sendo delegado, e cumprindo bem a minha função, poderia fazer diferença na vida das  pessoas. Eu e meu irmão seguimos os passos da minha mãe. Sempre alimentamos e ajudamos animais abandonados. 
 
Fale das dificuldades que enfrentou.
Um momento difícil da minha vida foi receber a notícia de que não voltaria a enxergar. Aconteceu quando fui prestar concurso para delegado e descobri problema que comprometia o funcionamento das córneas. Fui submetido a cinco cirurgias e estudava apenas com áudios das aulas. 
 
Por que focar na questão dos maus- tratos aos animais?
Quando assumi como delegado atuei em todo tipo de crime, inclusive de maus-tratos a animais, mas percebia que os casos não eram amparados na maioria das delegacias. As denúncias chegavam cada vez mais diretamente a mim. Ainda não somos amparados pela lei como deveríamos ser, mas pelo menos o pouco que conseguimos é muito na vida desses animais.  
 
O que você pode fazer por lei?
A polícia recebe as denúncias, investiga, colhe provas e instaura inquérito policial. Havendo prova de materialidade e indício de autoria, o delegado presidente do inquérito envia ao Judiciário e ao Ministério Público suas conclusões para que estes órgãos deem prosseguimento à persecução penal para os autores do crime.
 
Quais os motivos mais comuns da violência contra os animais?
Agressão física, negligência dos tutores (ambiente sujo, falta de água e comida, presos em correntes curtas), abandono, zoofilia...
 
As denúncias vêm do País todo?
Sim, até do Exterior. Quando não se trata de resgate próximo, consigo acionar as autoridades locais, além de ONGs e protetores. 
 
Qual caso mais o impressionou?
Infelizmente  diversos. Posso citar quando atendemos denúncia em São Bernardo, onde um cão teve a orelha cortada a sangue frio pelo dono por ter puxado roupa do varal. Também tem o Caso Pudim, na Zona Leste de São Paulo. O cachorro vivia preso em um forno. Eu o adotei.  Os seguidores o amam de forma inexplicável, tanto que fizemos perfil no Instagram para ele (@delegadopudim).
 
Quantos bichos você tem?
Tenho dois gatos (Tico e Teco) e dois cães: a Cindy e o Pudim. Todos foram adotados. A Cindy resgatei com mais 123 animais de um canil clandestino. Ela era matriz, explorada para dar crias.  
 
A internet ajuda nas denúncias?
Sim. Muitas pessoas cometem maus-tratos e insistem que não estão cometendo. Antes pouco se tinha informações sobre o assunto e as redes sociais possibilitam conscientizar de que há milhares de situações de violência e que precisamos nos unir pela causa animal. A internet dá voz aos animais. 
 
Como sua equipe trabalha?
Efetua apuração das denúncias, realiza resgates, além de executar ações sociais, como doações de rações, cestas básicas, remédios e itens de higiene para as pessoas. 

Como é a sua parceria com a ativista Luisa Mell e com os protetores?
Uma das grandes dificuldades como delegado sempre foi a destinação das vítimas. A Luisa e os protetores oferecem tratamento e preparam os bichos para receber um novo lar. O resultado da parceria é o benefício dos animais. Além disso, muitas denúncias recebidas partem deles. Não realizamos resgates sem o apoio de um médico- veterinário para laudo e cuidados, e de protetores ou ONGs. Mais do que os resgates solicitados e o apoio policial, procuramos orientá-los juridicamente e ajudá-los com campanhas de arrecadação de rações e medicamentos.
 
Como fazer para denunciar?
Existem os canais oficiais, como o 190 da Polícia Militar, o 181 da Polícia Civil, entre outros órgãos. Para o Estado de São Paulo, temos o site do Depa (Delegacia Eletrônica de Proteção Animal) – www.ssp.sp.gov.br/depa, além das minhas redes sociais. É imprescindível que se colete fotos e vídeos para serem usados como material de prova. 
 
Qual seu sonho?
É ver uma população mais consciente e amorosa com os bichos e com a natureza. Tudo começa na infância, em casa, com boa educação, e com programa pedagógico eficiente nas escolas. Isso, juntamente com políticas públicas, como a castração, diminuíram, consideravelmente, os casos de maus-tratos e de animais em situação de rua. Também sonho com leis rigorosas. Por isso, estamos encabeçando a campanha Cadeia Para Maus-Tratos, buscando viabilizar no Congresso Nacional, com os deputados federais e senadores, o aumento da pena e a possibilidade de reclusão para quem comete esses tipos de crimes. 
 



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