A violência na música

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Aline Melo

No mês passado usei este espaço para falar sobre a romantização da violência e dei como exemplo um filme que figurou mais de uma semana entre os mais vistos na Netflix,  365 dias. Baseada em um livro homônimo, a obra narra a história de um homem que sequestra uma mulher e dá um prazo de um ano para que ela se apaixone por ele. De origem nacional e muito mais popular, a música Vidinha de Balada, da dupla sertaneja Henrique e Juliano, diz em seu refrão: “Vai namorar comigo sim/Vai por mim, igual nós dois não tem/Se reclamar ‘cê’ vai casar também”. A violência explícita e romantizada.
 
Alguns dirão que esse é mais um caso da “patrulha do politicamente correto” e que “hoje em dia tudo está muito chato”. Prefiro acreditar que a cada dia que passa nos tornamos mais conscientes da violência impregnada na sociedade, especialmente contra mulheres e outros grupos minoritários e/ou vulneráveis. Importante ressaltar que o conceito de minoria não é apenas sobre quantidade, mas também pela capacidade que determinado grupo tem de decisão e seu poder financeiro.
 
No meio do século passado, em 1942, foi lançada a composição de Mário Lago e Ataulfo Alves Ai! que Saudade da Amélia. Com os versos que todo mundo hoje em dia sabe cantar, personificou a imagem da mulher submissa: “Amélia não tinha a menor vaidade/ Amélia é que era mulher de verdade”.
 
Em 1976, Roberto Carlos lançou a música Um Jeito Estúpido de Amar, composição de Isolda e Milton Carlos. Já na abertura, o eu lírico reconhece que usa de violência verbal: “Eu sei que eu tenho um jeito/Meio estúpido de ser/E de dizer coisas que podem magoar/E te ofender”. A letra toda é uma justificativa da violência na relação e termina dizendo: “Eu tento achar um jeito de explicar/Você bem que podia me aceitar/Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser/Mas é assim que eu sei te amar”.
 
Mais recentemente, em 2017, a cantora Marília Mendonça gravou a música Perto de Você, em que a personagem prefere conviver com a violência verbal do que se separar: “É melhor aguentar seus gritos/Do que me afastar/E nunca mais voltar/O que eu acho impossível/Mas e se a porta fechar/E não se abrir mais/É melhor aguentar seus gritos”.
No funk, estilo que já saiu há muito tempo dos bailes nas periferias e é curtido também em festas caras e badaladas, proliferam músicas com termos como “cadela”, “vadia”, “vagabunda”, “cachorra”. Normalmente, nos chamados “funks proibidões”.
 
Esses são apenas alguns dos inúmeros exemplos, antigos e recentes, de romantização da violência e até de apologia à violência contra a mulher presentes nas músicas brasileiras. Precisamos falar disso porque são as músicas, os filmes, as telenovelas, os livros que formam a base cultural de uma sociedade, onde comportamentos são validados e reforçados. 
 
Pesquisando para escrever este texto, descobri o site Música Machista Popular Brasileira (www.mmpb.com.br). Criada em 2018 por quatro mulheres, a página reúne diversos exemplos de músicas machistas, devidamente contextualizados e, em muitos casos, há sugestões de leituras complementares sobre o tema. Acesse, leia, conscientize-se. Que não percamos nenhuma oportunidade de desconstruir o machismo.



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