Nós, mulheres, resistimos

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Aline Melo

O ano se aproxima do fim. Um ano como nunca antes, em que uma pandemia mundial abalou as estruturas das maiores economias do mundo e redefiniu importâncias e prioridades em toda a sociedade. Muitos passaram a se dar conta do quão desafiador é o trabalho dos professores; do quão difícil é a convivência intensa até entre quem se ama; do quanto devemos valorizar e acreditar na ciência, neste momento em que profissionais lutam contra o tempo para desenvolver uma vacina segura contra a Covid-19. E sem dúvida nenhuma, nós, mulheres, fomos as mais afetadas por tudo isso.
 
É comprovado em números, como as horas de trabalho, que as mulheres são sobrecarregadas pelas atividades domésticas. A falta de compreensão de que quem mora na casa deve cuidar dela, associada ao machismo e ao patriarcado, faz com que as mulheres trabalhem, em média, dez horas a mais por semana que os homens nesse tipo de atividade, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 
 
Na pandemia, as mulheres que não perderam seus empregos – também fomos as mais afetadas pelo desemprego, segundo estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho), pois os setores que mais demitiram (serviços, hotelaria, alimentação) têm grande contingente de mão de obra feminina – se viram ainda mais sobrecarregadas. Sem escolas e creches, também foi grande o número das que não podiam trabalhar de casa e se viram sem ter onde deixar as filhos, sendo obrigadas a pedir demissão.
 
Para quem continuou com o trabalho remoto, ter que coordenar as aulas a distância dos filhos, a atividade profissional e as domésticas virou o novo normal, em uma rotina que compromete a saúde física e mental de milhares de mulheres pelo mundo. Se o trabalho doméstico aumenta, a produtividade profissional é afetada. Questionário respondido por 2.000 pesquisadores no Brasil mostrou que entre as pessoas sem filhos e que tinham antes da pandemia artigos prestes a serem concluídos, 40% das mulheres não finalizaram o trabalho, contra 20% dos homens. Quando é considerado o resultado de quem já tem filho, 52% das mulheres não conseguiram concluir o estudo, contra 38% dos homens. O número de artigos publicados por pesquisadores impacta diretamente na aprovação em editais, concursos públicos e progressão na carreira dos acadêmicos, mas a pandemia afetou muito mais as pesquisadoras do que os pesquisadores.
 
Por sorte, a vida não é feita só de notícias ruins. As mulheres aumentaram sua participação na política na última eleição municipal e, embora ainda em número muito inferior aos homens – apesar de sermos a maioria da população brasileira –, elevaram a sua presença no Legislativo. Ao final do pleito, a proporção de mulheres entre vereadores eleitos é de 16%. Em 2016, era de 13,5%. Para o Executivo, apenas 12% dos eleitos em primeiro turno eram mulheres e, a partir do próximo ano, apenas uma vai comandar uma capital, a prefeita reeleita de Palmas (Tocantins), Cinthia Ribeiro (PSDB). Também houve um tímido avanço no número de candidaturas femininas, que passou de 31,5% em 2012 e 31,9% em 2016 para 33,5% em 2020 (considerando apenas as eleições municipais).
 
No Grande ABC, passou de quatro para nove o número de cadeiras nas  câmaras municipais que serão ocupadas por mulheres, inclusive com duas propostas de mandatos coletivos, formados exclusivamente por vereadoras, em São Caetano e Ribeirão Pires. Seremos 6% das parlamentares, embora sejamos 53% da população na região. Ainda que pequenos, esses avanços são bons exemplos de como, apesar de tudo e de todos, resistimos. Que em 2021 possamos seguir em frente, lembrando que se hoje mulheres podem se candidatar, se eleger e votar, é devido às lutas feministas. Por isso, todos os dias precisamos falar sobre feminismo.
 



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