A construção da imortalidade

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Evaldo Novelini

 Livro reúne material que  ajuda a entender obra e vida de Joaquim Maria Machado de Assis

No começo do século XIX, como alerta à população, era costume da polícia fluminense espalhar pelas estações de trens retratos dos batedores de carteiras mais temíveis. Naquela época, uma garotinha de 5 anos, em visita à sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, após cuidadosa análise da galeria de fundadores da instituição, dentre os quais se destacavam os bustos dos escritores Machado de Assis, Joaquim Nabuco e Visconde de Taunay, pergunta, curiosa, à mulher que lhe acompanhava: “Mamãe, quem são aqueles gatunos?”

A anedota é uma das passagens de Escritor por Escritor – Machado de Assis Segundo seus Pares (1908-2008), recém-lançada coletânea em dois volumes, organizada por Hélio de Seixas Guimarães e Ieda Lebensztayn, que reúne textos que ajudam a compreender a obra e a vida de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Foram escritos nos 100 anos que se seguiram à morte daquele que é considerado, por muitos críticos e leitores, o maior autor brasileiro. Nas 1.020 páginas da obra publicada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, ao preço médio de R$ 150, há, além das historietas engraçadas, artigos, cartas, depoimentos, enquetes, ficções e poemas.

Os volumes abarcam textos que mencionam Machado de Assis a partir de sua saída de cena, aos 69 anos, na madrugada de 29 de setembro de 1908 – a certidão de óbito do escritor apontou arteriosclerose generalizada como causa principal, mas hoje se sabe que o autor sofria de epilepsia e depressão, acentuada após a morte da mulher, Carolina Augusta Xavier de Novais (1869-1904). “Na fase aguda de sua moléstia (...), se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se em pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize”, relata Euclides da Cunha, autor do clássico Os Sertões, em um dos artigos da coletânea.

O texto que abre o volume inicial é de autoria do jurisconsulto baiano Rui Barbosa. Intitulado de O adeus da Academia, trata-se do discurso na câmara ardente do escritor, na sede da ABL, ao partir o enterro. “Para os eleitos do mundo das ideias a miséria está na decadência, e não na morte. A nobreza de uma nos preserva da outra.” Na sequência, aparece uma profusão de escritores famosos falando sobre o colega. Olavo Bilac, Lima Barreto, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Erico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Ariano Suassuna. Não há grande pena que tenha deixado de tratar da maior delas.

“Somos todos uns bobinhos diante de você, Machado...”, louvou o paulista Monteiro Lobato, em 1939. É curioso notar que o criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que hoje se vê às voltas com acusações de racismo, foi um dos primeiros intelectuais a destacar a negritude da pele do colega como explicação da genialidade da obra machadiana. Lobato lembra que o ‘pardinho’, como o chamavam os colegas, resultou no maior escritor brasileiro. “Joaquim Maria veio ao mundo misturado. E pobre, paupérrimo, humílimo. (...) Mas recebera a marca divina. Iria subir sempre. Talvez que o destino o fizesse nascer no degrau último justamente para que a sua ascensão fosse completa e ele pudesse ter a intuição perfeita de tudo.”

Os organizadores recuperam pérolas que estavam esquecidas, como os escritos do professor fluminense Joaquim Osório Duque-Estrada, autor da letra do Hino Nacional. Em O Grande Morto, publicado originalmente no jornal fluminense Correio da Manhã, poucos dias após o desaparecimento de Machado, ele lamenta que são poucos os brasileiros que sentiram a perda, dado o alto índice de analfabetismo da época, em torno de 70% da população. “Meia dúzia de intelectuais compreendeu e amou a obra do mestre querido.”

A passagem das páginas mostra, todavia, que a produção literária do chamado Bruxo do Cosme Velho vai se popularizando com o tempo. Como constata o manauara Milton Hatoum, em texto de 2008, ano que marca o centenário da morte do escritor. “Hoje em dia, Machado é lido por jovens de todos os quadrantes e classes sociais, é uma espécie de autor nacional que conquistou leitores com grau variado de sofisticação e repertório cultural.”

Como sentenciou Augusto Meyer, em frase recuperada em um dos tópicos do primeiro volume, “a verdadeira história de um escritor principia na hora da morte, e de nós depende em grande parte a sua sobrevivência”. Ao dar o último suspiro, morreu o homem Machado de Assis e nasceu o mito.

 

 




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