Vladimir Brichta: o avesso do rótulo

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Miriam Gimenes

Claudinei Plaza
'Não me contentaria em fazer só humor'

“Estou te reconhecendo... Você é aquele humorista?” Sem querer, o senhor – que indagou Vladimir Brichta durante corrida na esteira da academia do hotel – pisou no seu calo. “Sou ator, mas tenho feito bastante comédia.” Minutos depois de responder ao interlocutor, o mineiro-baiano notou que deixou claro, de bate-pronto, que é ator antes de qualquer outra denominação. Ele é avesso a estereótipos. Agradece o título que já tentaram lhe atribuir de Ben Stiller brasileiro, sente-se lisonjeado até, mas não veste este rótulo. Assim como cantou Caetano Veloso, um de seus ídolos, ele tem capacidade de mostrar – sim! – que pode ser ‘o avesso do avesso do avesso’. “Não me contentaria em fazer só humor”, confessa.

Embora tenha protagonizado sucessivos sitcoms nos últimos anos – atualmente está no ar como o Armane, de Tapas & Beijos (Rede Globo) –, em sua primeira década de carreira desenrolou desde peças infantis até histórias dramáticas. E acaba de estrear no Festival do Rio com o longa A Coleção Invisível, drama baseado em conto do judeu Stefan Zweig. Vladimir faz Beto, jovem que tenta salvar o antiquário de família e procura uma coleção de gravuras raras no interior da Bahia. Lá, conhece o colecionador Samir (Walmor Chagas) e tem uma grande lição vida. Em nome do personagem, perdeu 11 quilos.

Nos palcos, compõe a peça Arte, da francesa Yasmim Reza, em cartaz até o dia 25 de novembro no Teatro Renaissance, em São Paulo. A montagem, é claro, arranca gargalhadas da plateia, mas também traz mensagem ao expor de forma diferenciada a relação humana, exemplificada por três homens – interpretados também por Marcelo Flores e Cláudio Gabriel – que discutem a amizade através de pontos de vista diferentes em relação a um quadro em branco. O detalhe é que a tal ‘peça de arte’ foi comprada por um deles pela bagatela de R$ 200 mil.

A obra, além de marcar sua primeira produção, exala a segurança do ator e sua satisfação com os caminhos que a carreira tomou. Por isso, a crise que o acometeu há alguns anos por ter medo de se limitar a um único tipo de personagem já foi superada. “Meu momento profissional me dá muito prazer de estar onde estou, de ter conquistado um lugar que eu tinha como objetivo: aquele onde posso fazer escolhas.” Vladimir chegou a participar de peças que não lhe agradavam porque a necessidade falava mais alto que sua vontade. Hoje ele escolhe, com orgulho, fazer papéis engraçados, dramáticos e também produzir peças com a temática que quiser.

Tanto que está nos seus planos interpretar o psiquiatra da obra dramática Equus, de Peter Shaffer. Vladimir encenou a mesma história em 1998, só que no papel do jovem Alan Strang, tratado pelo profissional após um surto. “Fiz uma promessa para mim mesmo: quando tivesse idade possível para ser aquele senhor, remontaria a peça fazendo o psiquiatra. Amei o personagem.” Também se vê, daqui a algum tempo, na direção. Os projetos são muitos e com grande chance de execução. “Ainda tenho uma vida pela frente.”
Por trás desta persona engraçada, no entanto, está o nome de um dos maiores mártires da ditadura militar no Brasil. O geólogo Arno Brichta, pai do ator, trabalhava com Vladimir Herzog na TV Cultura e acompanhou todo o processo de prisão e morte do então diretor da emissora nos porões do DOI-Codi. “Por questões ideológicas, decidi isso quando Vladimir ainda estava na barriga da mãe. Quis homenagear a pessoa boa e honesta que foi Herzog”, lembra Arno.

Assim como a história que originou seu nome, Vladimir também sabe ser sério, principalmente quando fala sobre os limites do humor, o alcance da arte no Brasil, a atenção dispensada pelo governo à Cultura, o boom de Carminha (interpretada por sua mulher, Adriana Esteves) em Avenida Brasil, família e filhos. Conheça a seguir as outras faces de Paulo Vladimir Brichta – ou Vlad, para os íntimos.

Claudinei Plaza
Humor também é uma forma de conscientização

A IMPORTÂNCIA DO HUMOR

Vladimir Brichta nasceu em Diamantina (MG), mas aos 2 anos deixou sua terra natal e seguiu rumo à Alemanha, onde o pai fez doutorado em Geologia. Com 6, retornou ao Brasil e estabeleceu raízes na Bahia, onde morou até a maioridade. Como todo ‘nordestino’ que se preze, sabe fazer humor de maneira peculiar. Desde pequeno, mostrou-se engraçado. “O humor reflete o estado de espírito de uma pessoa. A alegria tem ligação direta com o humor e ele (Vladimir) sempre foi uma pessoa alegre”, lembra o pai. Arno tem orgulho de o filho desempenhar bem a função humorística até porque, para ele, esta manifestação artística possui valor especial: é uma forma de transmitir de maneira mais leve e engraçada informações, conhecimento e críticas do mundo real. Pode até servir para contestação.

Arno diz isso porque é de um tempo em que O Pasquim, jornal em formato tabloide lançado em 1969, no Rio de Janeiro – auge da ditadura militar –, usava de artifícios engraçados, como charges e textos, para mostrar o descontentamento da sociedade com a política vigente. A publicação, feita por nomes como Jaguar, Chico Caruso, Ziraldo, Sérgio Cabral, entre outros, chegou a vender 250 mil exemplares, o que incomodou os militares. À mesma época, a peça Roda Viva, de Chico Buarque, que contava a ascensão e queda de um ídolo, foi atacada pelo CCC (Comando de Caça aos Comunistas), tendo atores espancados e cenários destruídos por ser tachada de subversiva.

Sem saber desta consideração do pai, Vladimir também acredita que o humor pode instruir o público. A peça Arte, por exemplo, não só entretém como mostra a engrenagem das relações na ‘arte’ do convívio, situação corriqueira a qualquer ser humano em casa, no trabalho ou na sociedade. Não há quem saia do teatro sem refletir sobre a maneira como conduz suas relações, inclusive de amizade.




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