Revolução da quebrada

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Nilton Valentim<br>Do Diário do Grande ABC

Mirar pode significar olhar atentamente para alguma coisa ou apontar uma arma para determinado alvo. Tudo depende da intenção e do objetivo de quem mira. Quando idealizou o mural Retomada, pintado estrategicamente na parede da Fábrica de Cultura de Diadema, Robinho Santana sabia exatamente em que estava mirando. Queria mostrar que existem vários caminhos para quem, assim como ele, nasceu na periferia.

No imenso painel, salta aos olhos a imagem do jovem de pele negra, com um pano que lhe esconde o rosto e deixa apenas os olhos à vista. Nas mãos há um diploma e na cabeça o capelo, chapéu que simboliza um rito de passagem de quem avançou de fase no jogo da vida e deixou de ser estudante.

(A obra) Fala de algumas coisas, como a importância da educação, que é uma ferramenta revolucionária. E eu ressignifiquei essa imagem. Troquei a arma pelo diploma”, sintetiza o artista, que nasceu no Jardim Ruyce, em Diadema, e fala com orgulho de suas raízes.

E, por isso, ficou emocionado quando teve a autorização para expor sua obra em local tão privilegiado. “Faz todo o sentido estar na minha cidade e em uma Fábrica de Cultura, um lugar em que as pessoas podem descobrir que existem outros caminhos, que a gente que é da periferia não precisa ser criado apenas para ser metalúrgico. Foi um sonho realizado”, afirma o artista.

Inquieto, como se define, Robinho quer com sua arte dar protagonismo a quem, na maioria das vezes, é discriminado por ser pobre, periférico ou negro, ou que junte as três características. “Eu quero que a imagem do negro seja revertida, que ele seja uma pessoa formada, pois o maior medo do sistema é que sejamos pessoas pensantes”, relata.

Quando fala de suas referências, mais uma vez remete à cidade em que nasceu, cita Helenildo Domingos da Silva, o Zé Pretinho, Pixote e seu pai, o sindicalista e deputado federal Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (PT). 

Orgulhoso do trabalho exposto, Robinho espera que os diademenses mirem sua arte e que mirem-se nela. “Se uma criança olhar para o painel, se encantar e mudar o seu destino por causa dele, já estou plenamente recompensado”, relata.

A pintura de Robinho em Diadema integra o projeto Recrie o Amanhã, da marca de calçados Converse, que reúne representações artísticas em diversos países, sempre na perspectiva de trabalhar potencialidades locais para realizar mudanças que chamam a atenção para questões globais. 




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